segunda-feira, março 12, 2007

Por uma escola politicamente correcta.

Disse Range-O-Dente em resposta ao meu artigo "Ministra Fala à Nação":

«“Não percebo a "relação pedagógica de poder e autoridade"... "Poder" para quê? Não basta aos professores Autoridade? A autoridade é essencial, mas a autoridade é conseguida pelo respeito, pela postura e pela maneira de dar aulas... não pelo "poder", como no tempo do fascismo!”
Não meta aqui o fascismo porque isso não tem pés nem cabeça. Qualquer democracia só funciona se houver autoridade e poder. Não discricionário, mas poder, não há que ter receio das palavras.
Não me surpreende que não o não perceba porque o Ministério da Educação é um poço de contradições insanáveis.
A verdade é que autoridade e poder são, para efeitos práticos, uma e a mesma coisa.
Essa história da autoridade ser conseguida pelo respeito, pela postura e pela maneira de dar aulas não faz sentido algum. É um absurdo.
O professor não é suposto ser polícia, ou educador de chicote. Não é suposto ser domador de leões.
É suposto que o professor seja uma referência face ao que lecciona, e cabe aos alunos conquistarem o respeito do professor em função do seu (dos alunos) desempenho nas aulas, não o contrário. Há que haver conquista de respeito de ambos os lados. O primeiro ganha respeito, face aos alunos, pelo que ensina, os segundos, face ao professor, pelo que aprendem. Tudo o resto não passa de um exercício de politicamente correcto.
Não é da responsabilidade absoluta dos professores que os alunos não aprendam. Eu percebo que estas palavras lhe soem a heresia, mas essa surpresa é resultado da suprema aberração resultante da adesão do Ministério da Educação às ciências da educação. Aliás, isso percebe-se das suas palavras quando diz que “Assim, só se prejudicam a si próprios...”.
Só faz sentido falar de autoridade se ela implicar poder, de outra forma anda-se a prégar no deserto – a realidade actual.
Experimente dar um pontapé nas canelas, ou passar, conduzindo, um sinal vermelho junto de um agente da autoridade e vai ver se ele não exerce a autoridade e o poder. Então que queria? Quem tem autoridade não tendo poder não tem autoridade alguma porque qualquer cabeça de abóbora a pode pôr impunemente em causa, justamente aqueles que insistem em prejudicar-se (problema deles) e aos outros.
“Sempre achei uma hipocrisia os professores nunca mandarem para a rua porque é mal visto entre os outros professores, ou só porque é preciso preencher o "relatório".”
Pois é. Muita autoridade mas nenhum poder. O poder está disseminado pelo corpo docente e pelas milhentas posturas legais enfim, toda a tralha que, se realmente praticada, provocaria a paralisia da escola. Demorou-se dezenas de anos a perceber isso e não estou certo que, as medidas anunciadas signifiquem que as luminárias do ministério tenham finalmente percebido algo.»

Digo eu:

Temos claramente posições diferentes do que deve ser a Escola.

A escola pode ser sustentada em um de três pilares: o professor, o conhecimento ou o aluno.
Ou nos focamos no mensageiro, ou na mensagem ou no receptor. Você, claramente, é um defensor da escola focada no professor. Compreendo. Para si, a mensagem só é boa e o aluno só a recebe bem se o professor tiver poder e autoridade, e se as decisões relativas à escola tiverem como foco os interesses do professor (que, vão beneficiar consequentemente a mensagem e o aluno).

Quem defende que a Escola deve-se focar no conhecimento, sustenta que as Leis da Escola devem ser sempre no sentido de se passar bem a mensagem, ignorando os interesses, deveres e direitos de alunos e professores, desde que a mensagem seja bem dada.

Há ainda os que, como eu, defendem que a escola devia estar focada nos alunos. A Escola devia fazer o máximo para proporcionar um bom presente e um bom futuro aos alunos. Os alunos são a Escola, na medida em que, sem eles, não haveria Escola. Sendo os alunos os utentes do serviço Escola, devem ser eles os principais considerados nas decisões relativas às Leis da Escola. (não defendo, como já me acusaram de defender, que os alunos deviam mandar na escola... eu só peço que sejam eles os primeiros a ser considerados nas decisões!)

A Escola centrada no aluno? "Disparate! Tretas!", diz você.
Mas repare: uma educação com foco no aluno, seria uma Educação em que se adapta o que se ensina e como se ensina ao ponto mais individual possível. Seria uma educação que iniciava desde cedo a educação para a cidadania e para a democracia, dando mais liberdade ao aluno. E claro, se se dá mais liberdade, os alunos têm de ser responsabilizados pelos seus actos. Uma escola baseada no aluno seria uma escola onde, naturalmente, os professores tinham mais autoridade (e menos "poder" absoluto).

Só se nos focarmos no receptor da mensagem é que podemos fazer com que o conhecimento lá chegue melhor. Os professores são, a meu ver, um elemento importante no Ensino, mas não são "O Elemento" mais importante do Ensino. A qualidade da mensagem não deveria nunca depender do professor ser bom ou não... nem sequer o professor deve ser um exemplo a seguir pelo aluno(porque nesse caso, há professores que sinceramente...)
O professor deve ser um elemento de ligação entre o programa e o aluno e mais nada.

A desierarquização da Escola seria fundamental para que se estabelecesse uma nova relação professor/aluno, mais mutualista e mais propiciadora a um ambiente de trabalho, não de guerrilha.

Mas eu percebo a sua teoria. Também é válida. Aliás é a que perdomina na opinião pública e no ministério, sobretudo com esta conversa velho-do-restelista da desautorização dos professores e do fim dos "bons costumes"...

Contudo, e como já disse, acho que a Escola do século XXI devia ser uma escola mais democrática e mais aberta, ou se quiser, mais politicamente correcta.

4 comentários:

Range-o-dente disse...

Actualização 3, aqui:

http://range-o-dente.blogspot.com/2007/03/ainda-bem-que-h-alunos-chia.html

Cumprimentos
RoD

Range-o-dente disse...

É capaz de fazer sentido que você meia este meu outro artigo, mais antigo:

http://range-o-dente.blogspot.com/2005/03/espiral-e-o-prego.html

Suponho que vai ficar a bater mal da bola, mas, novamente, problema seu.

Eu posso ter gosto em ajudar, etc, mas o problema é seu.

Se aceitar, fico mais contente, Se não aceitar, paciência. Posso tentar partir a coisa aos bocadinhos para facilitar a compreensão.

De uma forma ou outra, é a si que cabe a decisão de aceitar ou não. E com ela, a responsabilidade que daí advém.

Na escola, como em casa, aos pais cabe o poder discricionário de "obrigar" determinada coisa (dentro dos parâmetros da sociedade que somos - repare que não disse em que vivemos). O seu tal problema com o "poder", a "autoridade".

Resumindo, na escola, pelo menos até ao 9º ano, você não tem (completamente) essa flexibilidade de decidir o que aceita ou não (e mesmo mais tarde, enquanto não for adulto, não terá muita). Falando bem e depressa, o aluno é um nabo que, só depois de aprender estará capacitado para decidir posteriormente que caminho seguir, o que aceitar e o que rejeitar.

Da mesma forma que não teve voto na matéria quando veio ao mundo, não a terá durante bastantes anos de escola. Isto continua a não ser percebido, e enquanto assim não for continuaremos à míngua da Comunidade Europeia.

baldassare disse...

resposta no post "Por uma esco,a politicamente correcta II" e no seu blog.

Hasta!

Manoel disse...

Acho que há por aqui muitas pessoas que deviam leo "O Eduquês" de Nuno Crato. Vale a pena, idependentemente de se concordar ou discordar do postulado ali defendido.
Cumprimentos
Manoel