sábado, novembro 10, 2007
António Sampaio da Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, no Público
Isto é normal?
Com as propinas a aumentar cada vez mais, muitos alunos pensam duas vezes antes de entrar para a universidade. Outros, nem pensam duas vezes: não vão, porque não podem.
Já imaginaram a quantidade de capital humano que se está a desperdiçar quando se retringe o ensino superior aos que o podem pagar? A quantidade de bons engenheiros, médicos, economistas, e até dirigentes políticos que não o vão ser porque não podem pagar os custos da universidade... é que não são só as propinas: são os livros, o alojamento, os transportes, alimentação etc... já para não falar das pós-graduações, que com o Processo de Bolonha vão ser o mínimo exigido...
E em troca de quê? De um investimento em universidades americanas, para onde vão estudantes portugueses, que possivelmente vão lá ficar? Acordos internacionais podem ser uma boa aposta, mas o investimento num ensino superior economicamente acessível é essencial. Além disso, já temos relações com universidades de outros países através do programa Erasmus da UE... vale a pena tirar das universidades portuguesas para pagar universidades fora da UE?
sexta-feira, setembro 21, 2007
Escravos da banca
Texto publicado no Centro de Média Independente (negritos acrescentados por mim):
"Na Europa dos 15 não existem propinas na Dinamarca, Grécia, Luxemburgo, França, Finlândia e Suécia. Na Alemanha, o Tribunal Federal colocou um ponto final na gratuitidade, remetendo a questão para os governos locais. A esmagadora maioria das faculdades continua sem propinas. Portugal é o quinto país da União Europeia onde as propinas são mais elevadas, 900 euros, e o segundo em que o Estado investe menos dinheiro por aluno, 6000 euros. Pior só a Grécia, com 4285 euros anuais. Aqui ao lado, a Espanha despende 8399¤, a Itália 10161 e a França 10332. Em nenhum país escandinavo a despesa fica abaixo dos 13 mil euros, valor também atingido pela Alemanha, Irlanda e Dinamarca. Na acção social escolar o panorama não é mais animador. O nosso país fica em penúltimo lugar na percentagem de dinheiro destinada ao apoio dos estudantes mais desfavorecidos, com 6,7% do investimento total. Mais uma vez, pior só a Grécia, com 5,8%. A França investe 8,1% em bolsas, a Espanha 8,5%, Alemanha e Reino Unido à volta de 10%. A Holanda ultrapassa os 20% e a Dinamarca gasta 33% do total. A bolsa média em Portugal é de 49 euros mensais - refere o Público de sexta-feira, citando o Eurostudents 2005 - enquanto as despesas se ficam pelos 575. Perante este cenário o que faz o Governo? Investe na acção social? Não, corta no investimento no ensino superior público (só na Universidade de Lisboa, os cortes anunciados para 2008 ascendem a 10%) e introduz um regime de empréstimos, com um spread baixo, mas taxas de juro superiores ao que já existe no mercado e que os jovens terão que começar a pagar mesmo que não tenham emprego. O ministro Mariano Gago resume este novo convite ao endividamento das famílias, dizendo que quem não tem a certeza que poderá pagar não deve contrair o empréstimo. Num país com 56 mil licenciados no desemprego, pressupõe-se que só sabe que pode pagar o empréstimo quem já não precisa dele porque tem os pais como avalistas. José Sócrates, primeiro-ministro socialista, defende o sistema de empréstimos dizendo que a Acção Social Escolar não vai acabar. Há dez anos, António Guterres, outro primeiro-ministro socialista, dizia que o dinheiro das propinas seria destinado para aumentar a qualidade do ensino e nunca para gastar em salários e despesas de funcionamento, um facto há muito negado por todos os reitores. A história repete-se; primeiro como tragédia, depois como farsa."
Pôr os alunos como "Escravos da banca" assim que saem da universidade é tudo menos Acção Social. Os alunos, sem garantias de emprego, vão ser "obrigados" a contraír um empréstimo a instituições privadas para poderem estudar (têm a certeza que o "s" de PS é sigla de "socialista"?) .
Juntamente com as propinas e o processo de Bolonha, esta nova medida faz parte do conjunto de políticas que pretendem elitizar o acesso a estudos superiores. E essa elite não é constituída pelos melhores (isso não me chocaria), mas pelos mais ricos, pelos que podem pagar.
Para se entrar com bolsas é preciso ser-se muito muito bom, e mesmo assim, a bolsa é das mais baixas da U.E.
Será que temos de voltar, como diziam os Ladrões de Bicicletas, à velha frase "Acção Social não interessa ao Capital"?
