quinta-feira, abril 17, 2008
Semana pela Democracia
Quanto mais se abre a Escola à "comunidade", mais se fecha à comunidade escolar.
Na minha escola são proíbidas as Reuniões Gerais de Alunos e as manifestações não são autorizadas pelo Conselho Executivo (embora sejam feitas à mesma...)
Mas o pior não é isto. O pior é que, à medida que se tira representatividade aos alunos, dá-se a gente que nada tem a ver com a Escola: os municípios e as empresas.
Já agora, o comunicado . da Associação de Estudantes do Ensino Básico e Secundário alerta para uma coisa: ao passo que o Governo acusa a oposição de aproveitamento político de casos específicos e mediáticos, é o próprio Governo que aproveita estes casos para reforçar a autoridade do professor e reformular a gestão das escolas.
Para uma sociedade democrática é necessário uma escola democrática.
segunda-feira, dezembro 17, 2007
O poder (político) nas Escolas - PS
Vou fazer isto segundo a ordem das votações das últimas legislativas e vou incluir alguns partidos que não têm deputados. Não incluo o PCTP/MRPP nem o POUS porque não se encontra nada sobre educação e política educativa no site desses partidos... vejam lá se completam o site...
Comecemos então pelos partido que está actualmente no governo:
O Partido Socialista propõe alcançar 5 amições:
1. Estender a educação fundamental, integrando todos os indivíduos em idade própria, até ao fim do ensino ou formação de nível secundário. Isto quer dizer trazer todos os menores de 18 anos, incluindo aqueles que já estejam a trabalhar, para percursos escolares ou de formação profissional.
2. Alargar progressivamente a todas as crianças em idade adequada a educação pré-escolar e consolidar a universalidade do ensino básico de nove anos. O que implica retomar a aposta na rede nacional de ofertas da educação de infância e reforçar os instrumentos de inclusão e combate ao insucesso na escola básica.
3. Dar um salto qualitativo na dimensão e na estrutura dos programas de educação e formação dirigidos aos adultos. O que requer uma atenção particular às necessidades específicas dos adultos hoje activos que não dispõem de habilitações escolares equivalentes ao 9º ano de escolaridade.
4. Mudar a maneira de conceber e organizar o sistema e os recursos educativos, colocando-nos do ponto de vista do interesse público geral e, especificamente, dos alunos e famílias. O que determina que questões tão importantes como o recrutamento e colocação dos docentes, os tempos de funcionamento dos jardins de infância e das escolas ou a estruturação dos seus serviços, sejam abordadas da perspectiva dos destinatários últimos do serviço público da educação, as populações.
5. Enraizar em todas as dimensões do sistema de educação e formação a cultura e a prática da avaliação e da prestação de contas. Avaliação do desempenho dos alunos e do currículo nacional, avaliação dos educadores e professores, avaliação, segundo critérios de resultados, eficiência e equidade, das escolas e dos serviços técnicos que as apoiam.
Acrescenta o PS que "Só é possível avançar no caminho da inclusão e da igualdade de oportunidades, defendendo e valorizando o serviço público de educação e a escola pública, aberta a todos. Promoveremos, também, o apoio estatal, assente na qualidade e através de formas claras e rigorosas de contratualização, ao ensino particular e cooperativo."
O ponto quatro é ilucidativo: o objectivo não é a educação estar centrada no aluno, no professor ou no conhecimento, mas no interesse geral da sociedade. Quando diz "especificamente dos alunos e das famílias" é a conversa do costume: os que defendem a educação centrada no professor dizem que esse sistema irá a longo prazo beneficiar o aluno. Os que defendem a educação centrada no conhecimento explicam que só assim é possível beneficiar o aluno. É tudo para bem do aluno... no futuro... (talvez quando ele se torne professor...)
Portanto, o objectivo da política educativa deve ser, segundo o PS, o interesse público geral.
Ou seja, temos uma educação para as estatísticas, para os resultados e estruturada segundo rankings e comparações com a Europa. Tudo a bem da nação. Se a nação precisa de mão-de-obra para trabalhar nas indústrias, cria-se maneira de chumbar mais alunos; se a nação precisa de gestores, fazem-se programas e exames de economia e gestão mais acessíveis; se a nação precisa de maus resultados nos rankings para criar medidas contra a classe dos professores e dos alunos, então fazem-se exames com perguntas desonestas, trapaceiras e indirectas, com critérios de correcção que, à mínima falha, fica a questão anulada... e é isso que tem acontecido: os exames são feitos para haver maus resultados, para haver apoio popular em medidas que, de outra maneira, seriam rejeitadas pelos portugueses.
É esta a nova concepção do papel da Escola: a Escola serve para suprir as necessidades da nação e não as vontades e prespectivas futuras do indivíduo. É o Estado acima do indivíduo, a mandar o indivíduo fazer o que interessa ao colectivo, mesmo que o que "interessa" ao colectivo seja, na realidade, o que interessa ao poder político para legitimar as suas políticas economissistas. No caso dos exames isso é bastante evidente. A Escola centrada no interesse público geral, é esta a concepção do PS. Parece bonito mas, sabendo o que sabemos, não é.
O próximo post é sobre as políticas educativas do PSD.
domingo, dezembro 16, 2007
eLearning Awards 2007
Parabéns à professora e aos alunos!
segunda-feira, outubro 08, 2007
Direitos do Cidadão
No último post sobre este assunto, falei da Liberdade de Expressão e de como ensiná-la na Escola, com neutralidade e respeito por todas as opiniões. Aliás, a única maneira de ensinar a liberdade de expressão é com neutralidade e respeito por todas as opiniões...
A liberdade de expressão é um direito, que custou muito a ser adquirido e que, pelos vistos, ainda não foi adquirido dentro da escola.
Hoje vou falar de outros direitos. Os direitos do cidadão são uma parte fundamental da democracia. Se é verdade que a sociedade não consegue sobreviver sem os deveres individuais, é certo que sem os direitos, essa sociedade nunca será democrática.
- Direitos do Cidadão.
O Aluno é, antes que mais nada, um cidadão. Um futuro cidadão, se quisermos. Mas o Aluno só pode tornar-se um bom cidadão se, desde cedo, for tratado com os direitos dos cidadãos. Tem que sabê-los, tem que saber os seus limites e tem que exigí-los.
Conhecer os direitos é fundamental. Se a Escola não ensina os direitos dos alunos, como é que eles podem, no futuro, exigí-los? E aplicá-los aos outros? E se não souberem que o meu direito acaba onde começa o direito do outro, como vão saber o que podem e não podem fazer?
A Escola tem que, de uma vez por todas, assimilar duas palavras: Formação Cívica. No Ensino Básico, tem de deixar de ser uma espécie de "Espaço Direcção de Turma" onde se fala de tudo menos de civismo e direitos. No secundário, e visto que a maioria dos alunos têm menos de 18 anos (ainda não são cidadãos), é urgente criar esta disciplina e encará-la de uma forma séria. A longo prazo com professores especializados em Formação Cívica. Por enquanto, um curso de formação já remediava...
A Formação Cívica deve cumprir o que o próprio nome da disciplina promete: formar cidadãos. E um cidadão aos 15 anos não está formado! A FC tem de ser encarada muito a sério, para que seja um espaço de aprendizagem, debate e contacto entre escola e aluno.
Educar para a democracia pode parecer abstracto e complicado. Ensinar os direitos do cidadão é fácil e objectivo: dizer quais são os direitos, explicar os seus limites, fazer verdadeira formação cívica.
O mais difícil é aplicá-los dentro da Escola. A Escola, assumamos, não é (nem pode ser, dizem alguns) um sistema democrático. (também se dizia que a sociedade nunca funcionaria havendo democracia... era uma utopia...)
A Escola pode ser um sistema democrático, se os valores democráticos entrarem na Escola. (Actualmente, nem com cartão os deixam entrar...). Porque a função principal da Escola é formar cidadãos, que vão constituir a sociedade do futuro. Esses cidadãos têm de ter conhecimentos de Língua Portuguesa, claro. Têm de conhecer a História e a Geografia de Portugal e do mundo. Têm de ser estimulados ao raciocínio matemático. Têm de se especializar numa área, para que possam um dia trabalhar nisso. E, sendo cidadãos, têm de saber as regras da democracia e da vida em sociedade.
Se os cidadãos são o centro da sociedade, os alunos são o centro da Escola. Ou deviam ser. A Escola só existe porque existem alunos e devia trabalhar focada nos interesses presentes e futuros do aluno. Mais liberdade e tempo livre para os alunos (para que possam aplicar os direitos e deveres), menos hierarquia entre professores e alunos, eleição democrática dos representantes dos alunos (com alguma expressão na Assembleia de Escola...), liberdade de escolha da escola onde querem estudar (num sistema de vagas, em que o critério são as capacidades, e não a zona ou região do país). E sobretudo uma mudança de mentalidade, de professores e alunos, em relação ao papel do Aluno e do Professor na Escola.
Portanto, e resumindo:
1. Aprender os direitos: Formação Cívica a sério
2. Aplicar e aprender a vida em sociedade: Educação centrada no Aluno.
Dois passos importantíssimos para a democratização da Escola/Sociedade na sua estrutura e valores.
sábado, outubro 06, 2007
Recortes do discurso do Presidente no dia da República
A Escola é um problema de regime e os valores do regime estão espelhados na Escola. A Escola de hoje é a sociedade de amanhã. Se queremos que o regime seja hoje e amanhã um regime democrático e livre, há que ensinar a democracia e a liberdade.
Isso tem de ser feito na óptica da liberdade de expressão da opinião e com o máximo de neutralidade possível. Respeitar as diferentes opiniões, incentivando-as.
"Encontrar uma estratégia nacional para a educação das novas gerações, que a todos mobilize, é a melhor homenagem que podemos prestar aos valores republicanos."
A Escola tem de ser um regime democrático. E republicano...
"Nesta ocasião, gostaria de propor aos Portugueses um novo olhar sobre a escola, sobre um modelo escolar construído à luz da ideia de inovação social. Não quero dirigir-me especialmente ao Governo e à Assembleia da República. Quero dirigir-me a todos os Portugueses. A ideia de inovação social impõe-nos novas estratégias, conceitos e práticas para a satisfação de necessidades sociais. A ideia de «inovação» não é um exclusivo das actividades empresariais. É possível inovar – e inovar socialmente – nos mais variados campos, incluindo a educação. "
A Escola só consegue ter alunos e professores inovadores quando ela própria inovar, no modo como está estruturada. Menos hierarquia entre professores e alunos estimula um ambiente de trabalho, em vez de um ambiente de guerrilha. Mais liberdade individual para os alunos cria aprendizagem social, que não pode ser ensinada em salas de aula. Formação cívica e democrática produz uma sociedade tolerante, democrática, liberal. Republicana. A Educação centrada no Aluno foca os esforços nos interesses presentes e futuros do aluno, que é, no fundo, o originador da Escola e o futuro cidadão.
"Devemos começar por afirmar que uma escola republicana é uma escola plural e aberta, que cultiva a convivência entre as mais diversas convicções, credos ou ideologias. É também uma escola neutra, no sentido em que não se encontra ao serviço de uma qualquer ideologia oficial patrocinada pelo Estado ou qualquer organização"
Esta é a parte do discurso que gostei mais. Enquadra-se no Tema deste mês: como educar para a democrcia? Resposta do Presidente: cultivar "a convivência entre as mais diversas convicções, credos ou ideologias", nunca esquecendo que a escola é neutra. Ah Grande Cavaco!
"Por outro lado, importa sublinhar que a educação é a base da verdadeira inclusão social, pois esta encontra-se associada, em larga medida, às qualificações e competências de que cada um dispõe. Mas também num outro sentido se deve salientar o carácter inclusivo da escola: a democratização do ensino e a escolaridade obrigatória são factores de igualdade e elementos de convivência interclassista, interracial ou interconfessional. Para que essa convivência não se limite à superfície da realidade, é necessário que existam condições materiais para uma efectiva igualdade de oportunidades, a qual só pode alcançar-se através de um maior e mais activo envolvimento da comunidade com a escola."
Só falta isto para que os melhores, e não os mais ricos, fiquem com as melhores escolas (as que têm melhores condições materiais e humanas).
"Temos, de facto, de adoptar uma nova atitude perante a escola. Temos de perceber que aí residem os activos mais importantes do nosso futuro. É imperioso ter a consciência de que o investimento mais reprodutivo que poderemos fazer é nas crianças e nos mais jovens."
A última frase é a melhor do discurso. Investir na Escola é investir no futuro.
Depois disto, o Presidente fala dos pais e dos professores. Essa parte já foi muito comentada, sobretudo pelos sindicatos. Por isso, quem quiser ler o discurso integralmente, siga o link
Este foi o melhor discurso presidencial que já ouvi. Cavaco costuma surpreender nos discursos. Fê-lo no último 25 de Abril, mostrando-se bastante à esquerda do governo e fê-lo ontém, com um discurso idealista, muito republicano e com umas frases que ele sabia que iam ser utilizadas contra o governo. Nunca pensei que Cavaco Silva desse um presidente tão bom. Pelo que ele já vetou e pelo que ele já disse ao longo deste mandato, faz-me cada vez mais acreditar que o sistema democrático de escolha do chefe de estado é o melhor. Falo da República.
Um bom discurso. Um bom presidente. Um bom regime. Viva a República!
sábado, setembro 15, 2007
Uma questão de Liberdade, mas sobretudo de Igualdade
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Sob a presidência de Maria Barroso, realizou-se no passado fim-de-semana em Lisboa, na Universidade Católica, o Simpósio Internacional da OIDEL, associação europeia de escolas independentes, dedicado ao tema 'A escolha da escola face à justiça social: dilema ou miragem?' É difícil exagerar a importância da iniciativa e a profunda actualidade do tema.
Parece-me particularmente feliz que o tema da escolha da escola tenha sido directa e explicitamente ligado à justiça social. Na minha opinião, seguramente falível, a escolha da escola é uma daquelas pequenas mudanças estratégicas que pode ter enormes consequências melhoristas: na qualidade do ensino e na justiça social.
Hoje, as famílias têm de recorrer à escola estatal da residência ou local de trabalho. Se pudessem escolher independentemente desse constrangimento, isso introduziria concorrência entre as escolas do Estado para atrair os seus alunos. Teriam de melhorar a qualidade e anunciar essas melhorias aos seus potenciais clientes: as famílias. Quanto menos alunos tivessem, menos recursos teriam, e vice-versa. Está aqui um dos mais poderosos incentivos para melhorar.
Se, além disso, a escolha fosse alargada às escolas particulares que preenchessem certos requisitos básicos, os efeitos benéficos da concorrência seriam ainda mais fortes. Na Suécia, este já é o caso. O Estado fixa um custo por aluno e paga-o integralmente à escola, estatal ou privada, que a família escolher. Para beneficiarem deste sistema, as escolas privadas têm de aceitar não cobrar ao aluno mais do que aquilo que recebem do Estado. Desta forma, o ensino continua gratuito para o aluno, mas é fornecido em regime de concorrência por entidades estatais e privadas. (Outras escolas independentes podem cobrar propinas mais altas, mas não beneficiam do pagamento do Estado).
Ganha-se com isto eficiência e justiça social. Um dos grandes problemas actuais é que os mais pobres ficam 'acorrentados' às escolas locais, muitas vezes mais problemáticas e menos boas. Isso perpetua o ciclo da pobreza e restringe as oportunidades de vida dos mais desfavorecidos. A escolha da escola libertá-los-ia dessa armadilha de pobreza. Para facilitar a deslocação às famílias com menos posses, o Governo inglês, por exemplo, está a introduzir autocarros escolares para transportar alunos dentro de limites razoáveis.
Um pouco por toda a Europa a ideia da escolha da escola pelas famílias vai fazendo o seu caminho. Era tempo de podermos discuti-lo serenamente em Portugal. Foi isso que aconteceu no simpósio da OIDEL.
João Carlos Espada
Concordo em parte com esta posição de João Carlos Espada. A utopia irrealista da suposta igualdade de recursos materiais e humanos entre as escolas públicas, em vez de criar igualdade, cria desigualdades. Os melhores bairros ficam com as melhores escolas. Porquê? Porque os professores, quando são colocados, colocam como opção prioritária as escolas em zonas menos problemáticas. Se o critério fosse o aproveitamento em vez da área geográfica, haveria, certamente, mais justiça. Um aluno, por muito bom que seja, se for obrigado a ficar numa escola má (porque, repito, existem boas e más escolas públicas, quer queiramos quer não), dificilmente consegue aproveitar as suas capacidades.
Acusar-me-ão de querer uma escola elitista. De certa maneira é verdade: não tenho nada contra um sistema elitista, do ponto de vista das capacidades. Um sistema onde os melhores alunos ficam com as melhores escolas, em oposição ao sistema actual, onde os mais ricos ficam com as melhores escolas (pessoas com dinheiro moram nos melhores bairros onde existem boas escolas... pessoas sem dinheiro moram nos piores bairros, onde existem más escolas.)
Ou se uniformiza as condições e recursos humanos de todas as escolas do país- o que me parece completamente impossível- ou se introduz um sistema de vagas, onde o critério são as capacidades, não o salário dos pais.
A minha divergência em relação à posição de João Carlos Espada é a penas uma: ele defende que as escolas privadas devem entrar nesta equação. Eu defendo que este é um sistema que só deve incluir escolas públicas. Os melhores alunos (e os outros) têm de estar no sistema público, onde os critérios e o programa são claros, objectivos e controlados pelo Estado. Quem quer privados, que pague. Esse é o critério da Escola Privada. Não pode ser o critério da Escola Pública.
quinta-feira, julho 12, 2007
Roma e Pavia não se fizeram num ano
Mau resultado, deveras. Maus alunos, maus professores, mau GAVE, que não faz um exame adequado ao que temos. Mau para todos; bom para o ME, agora com mais desculpas para "lixar" os professores, nomeadamente os de matemática. É tão fácil dizer ao GAVE "façam um exame muito difícil para a maioria, para podermos aplicar as medidas que de outra maneira seriam inaplicáveis."
Mas enfim... contra o poder não há argumentos, já dizia o outro...
Também fiquei impressionado com a reação da Sociedade Portuguesa da Matemática e do seu líder Nuno Crato: "Nuno Crato diz mesmo que estes exames revelam um fracasso do Plano de Acção da Matemática. «Isto não funcionou. Os professores fazem o melhor que fazem», afirma."
O PAM foi iniciado há um ano. Nuno Crato queria que, num ano, o PAM revolucionasse a Matemática e o ensino da matemática em Portugal. E qual é a solução? 'Deixemo-nos de eduquês e de politicamente correcto... voltemos ao que havia antigamente...' suponho que é esse o plano de Nuno Crato e da SPM... só pode ser.
Se um plano pedagógico não resulta no espaço de um ano, fracassou - segundo esta lógica (?), nenhum plano é bom, porque nenhum plano pedagógico resulta num ano. É matematicamente impossível.
Conjugando o pensamento de NC sobre o ensino e as suas declarações sobre o PAM temos que:
- Um plano pedagógico tem que resultar num ano
...logo...
- Se não resultar num ano, foi porque falhou
...logo...
- Quando um plano pedagógico ou um sistema de ensino falha, o que é que se faz? Deixamos de investigar e voltamos ao sistema anterior, mesmo que esse sistema também falhasse.
A SPM iliba os professores de qualquer responsabilidade neste resultado. O PAM, que foi aplicado há um ano, tem a culpa do resultado negativo. Os professores, que ensinam há dezenas de anos, muitos deles com os mesmos métodos, apesar dos maus resultados constantes, não têm culpa nenhuma...
Última nota: gosto quando se fala das "dificuldades a matemática" ou "o problema da matemática em Portugal"...
Só chega à população os maus resultados a Matemática porque só há exames nacionais a matemática e português. Se houvesse exames a Ciências, História ou FQ, também haveriam muitos problemas e muitas negativas... Todos os professores ganham o mesmo (consoante o escalão), têm as mesmas turmas, os mesmos horários, mas só os de LP e matemática têm de "preparar para o exame" e só estes levam com o carimbo da incompetência, embora a incompetência exista também (arrisco-me a dizer "sobretudo")nas outras disciplinas.
E os alunos? Existem alunos que são melhores a outras disciplinas, mas só vão a exame às que, nalguns casos, têm maior dificuldade... Poder-se-á dizer que é uma questão de prioridades. Desde quando é que fazer exames a todas as disciplinas tirava importância ou prioridade a Matemática e Português?
O que tirava prioridade a estas disciplinas era acabar com o Plano Nacional de Leitura e com o Plano de Acção para a Matemática...
Não é num ano que um plano pedagógico mostra os seus frutos. De qualquer maneira, se realmente o plano não funcionar, há que fazer outro, que funcione.
terça-feira, julho 10, 2007
Afrontar o "politicamente incorrecto" é a coisa mais politicamente incorreta que se pode fazer
"Eduquês" em discurso desonesto
Sei que o atraso é grande, mas cheguei agora à leitura do comentado livro de Nuno Crato "O Eduquês em discurso directo - uma crítica da pedagogia romântica e construtivista". Sem querer contestar a existência dessa linguagem hermética, complexa e floreada, que frequentemente esconde um deserto de conteúdo e à qual Marçal Grilo tão bem chamou eduquês (linguagem que se encontra também fora das discussões sobre educação, sendo encarada por muitos como sinal de erudição e pensamento complexo), o pequeno livro de Nuno Crato vai muito além da ideia do ex-ministro.Exemplarmente bem escrito, como aliás é costume nos textos do matemático, por entre a profusão de citações e referências bibliográficas surge um chorrilho de desonestidades intelectuais, repetidas interpretações perjurativas, jocosas e descontextualizadas de frases dos colunáveis da educação portuguesa, e uma recorrente deturpação das ideias e dos princípios que estão subjacentes a esta ou aquela afirmação. O ilustre matemático e divulgador de ciência mais parece um adolescente com dotes de escrita a quem roubaram a amada, e que se vinga ridicularizando o outro Romeu de todos os modos possíveis, independentemente da lógica ou honestidade intelectual.
Enquanto despeja o seu ódio intestino às correntes pedagógicas vai demonstrando um desconhecimento do funcionamento da sala de aula, dos problemas e desafios que são postos à escola actual, e de muitas das teorias que ele próprio cita para justificar os seus ataques. São interpretações convenientes, limitadas o suficiente para servirem o propósito.
Espremendo o texto escorrem uma gotas do liberalismo de quem passou metade da vida a adorar o modelo de ensino dos EUA, misturados com um conservadorismo atroz. Nuno Crato acaba por rejeitar a validade do método de construção do conhecimento científico, ao querer parar todas as mudanças que as correntes pedagógicas actuais defendem, com as deficiências, fragilidades e excessos que são inerentes às teorias de qualquer área do conhecimento (e que só podem ser ultrapassadas com a discussão académica e social). Em vez disso defende que se volte atrás, que se regresse aos métodos antigos que se sabe funcionarem, até se provar a validade das novas ideias.
Pergunta-se se os irmãos Wright tivessem esperado pelo desenvolvimento de um avião que nunca cairía seríamos hoje capazes de ir de Lisboa a Nova-Iorque em poucas horas, para levar a injecção mensal de liberalismo.
O que este regresso aos métodos antigos esconde é uma total desvalorização dos desafios de universalização do ensino, da desigualdade de condições económicas e culturais no acesso ao conhecimento (uma golpada no conceito de classe e dos códigos diferenciados, como um bom liberal deve fazer), sendo estes problemas completamente independentes da questão da "utopia" igualitária a que comummente são colados.
O que se sabe é que os métodos antigos funcionam muito bem para quem é muito bom. O que Nuno Crato não responde (nem a pedagogia moderna - ainda) é como fazê-los funcionar muito bem para todos os outros. Ou se calhar isso não é importante..."
Link
sábado, julho 07, 2007
A receita do sucesso nos exames de Matemática
- A começar "pelo esforço e o trabalho realizado pelos alunos, professores e escolas, designadamente na preparação dos alunos com a realização das provas intercalares", introduzidas para esta disciplina em 2005.
- Em segundo lugar, Maria de Lurdes Rodrigues aponta o alargamento do tempo de realização do exame de Matemática de duas horas para duas horas e meia.
Já a Associação de Professores de Matemática (APM) ainda que concordando com a ministra, refere, segundo o PÚBLICO,:
- o facto de os alunos dos cursos tecnológicos, tradicionalmente com notas mais baixas, já não terem de fazer o exame a não ser que queiram candidatar-se ao superior."
A Sociedade Portuguesa de Matemática tinha que vir estragar o quadro, tão bem compostinho:
- "aponta a maior duração e acrescenta que o "exame foi mais simples".
Generalize-se!
Em 150 minutos, um aluno foi destruído
07.07.2007, Mariana Oliveira Fernanda Pires de Lima corre as pautas com os olhos, já sem a azáfama das primeiras horas da manhã. Professora de Desenho na Escola Secundária de Rodrigues de Feitas, no Porto, quer saber que notas os exames nacionais reservaram aos seus alunos. "Um estudante exemplar, em 150 minutos, foi destruído", atira, num tom de desalento.
Bons ou maus, milhares de estudantes do 12.º ano ficaram ontem a saber os resultados dos exames nacionais. Mas, para muitos, este ainda não é o ponto final no currículo do secundário.(...)"
sexta-feira, junho 01, 2007
Queremos exames!
Cerca de zero vezes, para ser preciso. Porque é que eu acho que os alunos beneficiam dos exames? Porque é que eu quero ser avaliado por exames?
- Antes de mais nada, é uma questão de princípio. Eu quero ser avaliado pelos meus conhecimentos, e não quero ser prejudicado pela avaliação subjectiva de um professor. Os professores são humanos, têm sentimentos. E esses sentimentos podem levar a um erro na avaliação, ou a alguma parcialidade. Por isso a avaliação deve ser feita por um exame nacional, igual para todos os alunos. Só assim se pode avaliar objectivamente os conhecimentos dos alunos.
- Muitos alunos beneficiariam dos exames nacionais como elemento principal da avaliação. Porque existem muitos professores incompetentes, ou que não nasceram para a docência. Mas vivem dela. E porque muitos alunos podem não ter aquela imagem de "estudiosos" que os professores querem, mas realmente estudam. Com os exames, é que se vê quem é que é mesmo "aplicadinho". Não é pela postura corporal e olhar interessado...
- O exame é nacional, e isso ajuda à justiça.
- Integrado na Educação centrada no Aluno, os exames como principal instrumento avaliativo fazem ainda mais sentido. Eu acho a "avaliação contínua" uma hipocrisia. Porque defendo um modelo em que as aulas são opcionais até que o aluno deixe de ter boas notas. Avaliação aula a aula é avaliação de nada. É subjectividade, é simpatia e graxismo. Na Escola deve-se avaliar concretamente os conhecimentos, de onde quer que eles venham. Se eu acho que tiro maior proveito de uma hora e meia a estudar na sala de estudo do que a ter aula, e se acho que assim consigo obter mais conhecimentos, e realmente consegui-lo, qual é o problema? O problema é a indepenência e autonomia, que são pouco toleradas na Escola de hoje.
- Depois, os exames são feitos por uma comissão que deve criar exames adequados à média e com os conhecimentos que ache que os alunos devem ter. Por exemplo, o exame de Matemática do 9º ano do ano passado tinha muito mais de raciocínio do que de matéria. Porque o GAVE achou que era essa a parte mais importante da Matemática. Concordo. Outros discordarão. É por isso que a avaliação tem de ser nacional. Porque uns fazem a avaliação de uma maneira e outros de outra... e isso assim não pode ser...
P.S.: Para que fique claro: defendo exames nacionais no 6º, 9º e 12º, a valer, no mínimo, 50% da nota. E regeito o sistema de há uns anos, em que se podia não ir a exame, se se tivesse boa nota atribuida pelo professor. Vai contra tudo o que ennumerei anteriormente.
Já agora, leiam isto, que mostra que os exames a valer 50% seria mais vantajoso para os alunos, do que o actual modelo, em que contam 30%. É um raciocínio matemático (podia estar na Teuria dus Numaros). Se quiserem comentar, façam-no neste post e não no antigo...
P.P.S.: A próxima Pergunta da Semana será novamente sobre este tema.
sexta-feira, maio 25, 2007
Resposta ao bom post
A minha resposta:
A Educação centrada no Aluno não dá assim tanta margem de escolha aos alunos. Os alunos não podem escolher se querem ou não estar na Escola. Nem as famílias. Porque não cabe só aos alunos e às famílias a educação.
Tem de ser a Escola a educar. E tem de educar segundo os valores que quer que a sociedade futura tenha. Quais são esses valores? Para mim, tem de se educar à liberdade, responsabilidade, cidadania, democracia, respeito pelos outros etc...
Como é que se educa para a liberdade? Dá-se liberdade. Dá-se rédea. Dá-se espaço ao aluno. Se o aluno gerir bem essa liberdade, tudo bem. Poderá, inclusivamente, dar-se ainda mais liberdade. Se, pelo contrário, o aluno não corresponder, retira-se a liberdade e passa-se a exigir responsabilidades. Essas responsabilidades poderão passar (em casos graves) por expulsão, multas, internato etc...
A Educação centrada no Aluno implica uma mudança de atitude em relação à escola. O Aluno não é um meio. É um fim. É o objectivo da Escola.
Voltando à questão da liberdade: um aluno que não queira estar na sala de aula é muito prejudicial.
Um aluno que não quer estar na aula e não vai, prejudica-se (ou não). Um aluno que não quer estar na sala de aula e é obrigado a ir, prejudica-se a si e prejudica todos os outros, mesmo aqueles que querem lá estar. Então, damos prioridade aos interesses do aluno que não quer ir à aula, por obrigá-lo a ir? Ou damos prioridade aos interesses do aluno que quer estar na aula?
Temos de ter prioridades. Segundo este modelo, ajuda-se o aluno que quer estar na aula, por dar-lhe uma aula onde só lá está quem quer.
Ajuda-se também o que quer faltar às aulas. Como? Bem, em primeiro lugar porque lhe fazemos a vontade... Depois, por exigir as responsabilidades, que incluem aulas de apoio, ajudamo-lo a compreender que tem de acordar para a vida. Mas atenção: claro que este sistema dá prioridade aos interesses do aluno que quer estar na aula. Os interesses do que usa mal (ou não) a sua liberdade estão postos em segundo plano. Mas ainda assim constituem um plano.
É como digo: o sistema está podre, e tem de ser substituído por outro, que incuta os valores que queremos para o futuro. É aqui que o seu modelo (desculpe lá... não sei como lhe chamar) e o meu divergem. Nos valores que queremos para o futuro.
Nota: quando digo "prejudica-se (ou não)" e "usa mal (ou não) a sua liberdade", utilizo o "ou não" porque um aluno que falta a algumas aulas pode ter boa nota. Hipoteticamente.
A avaliação contínua é uma hipocrisia e as aulas deviam contar muito pouco na nota do aluno. Os conhecimentos devem ser avaliados por testes, provas e exames. Vou escrever sobre isso para a semana, e a Pergunta da Semana de Terça-Feira vai ser sobre isso.
Resposta ao mau post
Neste post, Range-o-Dente usa uma táctica antiga: pega num caso isolado, que indigna qualquer um, e mistura-o com uma reflexão sobre os valores da Escola, na tentativa de alastrar a indignação à teoria da Educação centrada no Aluno.
O acto destes alunos não é, a meu ver, producto do modelo de ensino. É producto de outras coisas. Mas, a ser culpa da Escola, é culpa do actual sistema. Não é, de certeza, de um sistema que só existe em teoria (tanto assim é que Range-o-Dente chama-lhe uma teoria do "planeta dos gambosinos").
A Educação centrada no Aluno, actulmente, em Portugal, não existe. Não a culpem de nada que tenha sido feito, porque ela não existe.
No fundo, o que Range-o-Dente quer dizer é: É nestes gajos que querem centrar a Educação?
Generalização. Outra táctica antiga.
quarta-feira, maio 23, 2007
Lamaçal
Mas no que se baseia a crítica (seguida de insultos) de Range-o-Dente? No eu chamar "modelo" à sua "Possível saída do lamaçal". Claro que Range-o-Dente não tem um modelo. Para ele a escola é como é, e qualquer pensamento sobre a Escola ideal ou o modelo a seguir é uma coisa do "planeta dos gambosinos". Não percebe que só se podem fazer as medidas pontuais se se tiver um modelo de escola ideal a seguir (uma bitola), que poderá ou não ser alcançado.
Reparem que a sua crítica resume-se ao apelidamento de "modelo". Para Range-o-dente um modelo, um ideal é uma coisa má, a evitar.
Acusa-me de "colocar na minha boca coisas que eu nunca disse".
Vejamos:
O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Modelo da Educação segundo Range-o-Dente:"
O que foi dito por RoD: "Já agora: desafio-o a fazer um comment no seu blog sobre a Escola ideal para si. " Aqui vai:" e depois começou o texto. Ele disse "aqui vai [o comment sobre a Escola ideal]"
O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Dá-se disciplina."
O que foi dito por RoD: "o único caminho trilha-se pela subida de fasquias e a primeira fasquia será a da disciplina." Dúvidas?
O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Se o aluno for bem disciplinado e aprende bem, sobe-se a fasquia, pedindo ainda mais disciplina."
O que foi dito por RoD: "Com uma subida regular de fasquia em relação ao comportamento e ao aproveitamento as coisas melhorariam gradualmente." Ah, totalmente diferente...
O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Se o aluno não corresponder, "salta"."
O que foi dito por RoD: "Subindo ligeiramente a fasquia ‘saltariam’ alunos" Pois...
Parece-me que não corrompo as frases de RoD. Não transcrevi o seu texto. Resumi-o às ideias essenciais e comparei-o com o meu modelo.
No essencial, RoD não diz nada. Critica e insulta. E insulta melhor do que critica.
terça-feira, maio 22, 2007
Diferentes modelos de Escola:
Ver label "Educação Centrada no Aluno"
Modelo da Educação segundo Range-o-Dente: Dá-se disciplina. Se o aluno for bem disciplinado e aprende bem, sobe-se a fasquia, pedindo ainda mais disciplina. Se o aluno não corresponder, "salta". Ver link
É escolher...
sexta-feira, maio 18, 2007
O não-argumento
O facto de existirem alunos mal comportados, mal-educados, arrogantes, vai-à-merdistas etc... não é argumento contra a Educação Centrada no Aluno. Pelo contrário. É um facto que atesta a necessidade de mudança de sistema. É sinal de que algo está mal e que este modelo não é adequado.
Como já disse, proibir uma coisa não é necessariamente a melhor maneira de a combater. Um sistema com maior liberdade pode ter (na minha opinião, tem) benefícios.
A Educação centrada no Professor e no Conhecimento, que tem sido o modelo dos últimos 100 anos, produziu maus alunos, maus cidadãos. Obviamente que tudo isto não tem como único responsável o sistema de ensino. Os pais, a infame TV, a maldita internet, a falta de causas etc... são também responsáveis. Por isso mesmo, a Escola tem de educar aquilo que o resto deseduca. A TV ensina o "seguir as modas", o consumismo, o carneirismo... A internet, para muitos, não passa de Hi5, MSN, Youtube e Wikipedia para os trabalhos. Tudo apela à submissão e ao não-exercício da liberdade: pais, TV, net e o resto do mundo.
A escola tem de ser local de liberdade e responsabilidade. Tem de ser lugar de formação de cidadãos livres e não um mero local de trabalho para professores e continos, ou uma instituição que se limita à transmissão de conhecimentos.
Foi este sistema que criou esta geração. Quem está mal, muda.
terça-feira, abril 17, 2007
Pergunta da Semana
a) Everyone should have the right to the best education they can afford.
b) We should focus our resources on our good students.
c) We should focus our resources on students facing difficulties.
d) We should focus our resources on teachers.
Pergunta retirada do teste Moral-Politics.
sábado, abril 07, 2007
A Escola Educa.
Em sequência a vários assuntos levantados pelo Baldassare, volto à carga.
Volto a afirmar que a escola, na sua faceta mais visceral, se resume a um triângulo: Matéria, professor, aluno (deixo a discussão sobre a ordem apropriada para quem gosta de discutir o sexo dos anjos).
O professor ensina a matéria, o aluno aprende a matéria. A matéria é o elo de ligação.
Os alunos mais novos (pelo menos até ao 9º ano) não podem ter voto quando se trata de escolher o que querem ou não aprender. A partir daí e até determinado ponto, poderão apenas escolher o ramo a que queiram mais dedicar-se (por sua exclusiva responsabilidade).
Já agora, contrariamente ao que algumas luminárias do Ministério da Educação(?) pensam, a educação deve, fundamentalmente, ser dada pela família. À escola cabe primordialmente ensinar e, só depois de o conseguir fazer eficaz e eficientemente pode pensar noutros voos (não quer dizer que não tenham lugar uns laivos de educação, mas a coisa fundamental é ensinar matéria – coisas relativas ao mundo em que vivemos, como mortais que somos). Aliás, o Ministério deveria chamar-se Ministério do Ensino.
Já se sabe que as famílias são uma manta de retalhos que, a existirem com alguma solidez, se reúnem à volta do maior caixote de lixo da história, a televisão, snifando gases putrefactos. Ou se reúnem ou se isolam, cada um por sua conta, frente a TVs ou ainda a computadores onde a Internet, manancial fonte de copy+paste e chats imbecis, domina a educação caseira.
Entre os alunos instalou-se um clima em que é rejeitado (pelo grupo, de comportamento cada vez mais acarneirado), todo o aluno que não “curte”, na totalidade (pois claro) a estupidez reinante.
Paralelamente à instalação deste clima, as tais luminárias do ministério foram criando um novelo de absurdos, capitaneado pelas Ciências da Educação.
Esse novelo foi começando simplesmente por se tornar um estorvo ao ensino (aquela coisa que na escola se espera que aconteça), para, paulatinamente, ir tentando desmanchar o tal triângulo das tripas. Ir tentando, quer dizer, escaqueirando.
Á medida que das luminárias foram vertendo paradigmas (héhé), a escola foi começando a conseguir ensinar cada vez menos.
O aluno não aprende? Porque o método não é correcto.
O aluno não aprende? Porque não lhe foram feitas as perguntas correctas.
O aluno não aprende? Porque lhe faltam os equipamentos adequados.
O aluno não aprende? Porque há muita indisciplina, perdão, porque os alunos são problemáticos, perdão, são originários se bairros problemáticos. (Parece que 95% do país é composto por bairros problemáticos)
O aluno não aprende? Porque as aulas não são “apelativas”.
O aluno não aprende? Porque “a matéria sugerida não é a que lhes interessa”.
...
Qualquer mortal percebe que, implicitamente, está em jogo a autoridade e o poder do professor.
Já sei que o Baldassare não gosta da palavra ‘poder’, mas isso é um problema dele. Não há autoridade sem poder, a não ser na cabeça(?) das tais luminárias – não só mas também, já se percebeu. À guisa de sugestão sugiro que o Baldassare, antes de dormir, repita 50 vezes a frase “autoridade e poder são duas faces do mesmo todo”, e medite o seu significado. Se mesmo assim não for lá, problema dele. Esta coisa de aprender quase nunca acontece sem suor.
Voltando às aulas, a escola tem-se transformado numa espécie de prolongamento do jardim de infância, uma coisa destinada a fazer passar o tempo sem se dar por isso. Uma alternativa à ida à revista, onde o aluno, coisas passiva, assiste e gosta ou não.
O novelo de absurdos criado à volta do triângulo, acabou por absorvê-lo, tendo-se entrado no reino do disparate total. Pretende-se que os alunos aprendam, sem esforço, coisas que lhes são sugeridas como mera hipótese de diversão.
Há pessoas que supõem que alunos desta idade têm “crenças” que o professor não deve contrariar: a aula certificadora do bom selvagem.
Como é de esperar, o resultado é patente. Cada vez se aprende menos, sobre o que quer que seja. A estatística não ajuda, a culpa é da estatística, escaqueira-se a estatística. O aluno continua a não aprender, naturalmente porque a matéria é inadequada. Curiosamente nunca é substituída, apenas removida.
A fasquia que, em cada momento, cada aluno tem pela frente vai sistematicamente baixando e, mesmo assim, a estatística não melhora.
As luminárias ficam perplexas (palavra que eles adoram), mas insistem em negar a realidade. As intenções deles são as melhores, logo, o mundo está errado.
As luminárias, munidas de uma verborreia do politicamente correcto, levam a arte ao zénite do nada.
Os alunos continuam sem aprender, entretanto em segunda geração: os papás respectivos despejam os rebentos na escola como se esta os substituísse.
Já sei que o Baldassare acha que eu defendo coisas do tempo da outra senhora (coisas de Velho do Restelo – percebendo-se que, de Velho do Restelo, o Baldassare nada percebe). Sugiro que ele leia este artigo, do Pacheco Pereira, em que ele explica a origem do politicamente correcto. [Não consegui link para o original do Abrupto, converti o artigo em PDF].
A cambada continua a sair da escola cedo demais e, mesmo quando lá fica mais uns tempos, a aprender pouco.
Os programas vão sendo dizimados de matéria e os canudos lá vão sendo distribuídos, como se isso tivesse alguma importância no mundo real: aquele em que as pessoas decidem, frente a uma prateleira de supermercado, por determinado produto em função da relação preço qualidade.
O Ministério continua a supor que o copy+paste é suficiente.
A malta não aprende o suficiente para se aguentar face a americanos, japoneses, ingleses, franceses, alemães e agora, blasfémia, indianos e chineses. Não bastava já estes dois ganharem menos que a malta e, ainda por cima, parecem trabalhar melhor que nós. Porque será? Será que nas escolas chinesas se ensina pelas mesmas bitolas que aqui?
O Velho do Restelo avisou: vejam lá onde se vão meter.
Descobrimos o caminho de água para a Índia, mas os proveitos foram esbanjados em sumptuosidade. Quem ganhou?
Pouco depois o ouro do Brasil. As riquezas eram trocadas por quinquilharia mais ou menos vistosa no Mar da Palha – nem chegava a terra. Quem ganhou?
Nas colónias de África nem tanto. Não f...... nem saímos de cima.
Na Comunidade, uma parte significativa do cacau foi refundida em BMWs. Os alemães agradeceram. De outra parte fizeram-se infra-estruturas que agora nos vemos à rasca para manter. Do que sobrou fizemos formação, mas esquecemo-nos, mais uma vez, de chamar à atenção dos alunos que a parte que lhes competia era a parte em que era suposto aprenderem (e, se calhar, a história vai repetir-se brevemente).
Milhares e milhares de gajos fizeram formação em quantidades industriais. Tudo servia. Qualquer gajo se inscrevia em cursos de cabeleireiro após ter terminado um de informática. Tiravam-se cursos em chouriço. Resultados?
Os centros de formação que pretendiam manter padrões mais elevados aplicavam o chumbo sem tibiezas, mas logo apareciam umas luminárias chamando a atenção que a estatística (os ‘ratios’ como eles gostam) estavam demasiado baixos e, portanto, havia que alinhar na balda generalizada - ou os subsídios seriam capazes de escassear.
...
Já com o lodo pelo pescoço, aparece uma ministra que não sabe muito bem para que lado se há-de virar. Globalmente tem feito um trabalho razoável, mas ainda está para se ver o que pretende ela parir em relação à matéria e à disciplina.
A história da TLEBS não abona em favor dela. A história da disciplina também não se percebe muito bem. Um leitor habitual deste blog chamou a atenção para que possa ser provável que ela retroceda o caminho que tem vindo a ser seguido (desautorização do professor) apenas por lhe parecer uma coisa inevitável (dai mais poder ao professor e mais responsabilidade à família) mas ele chama a atenção de que isso pode ser uma decisão a contra-gosto.
A disciplina é um valor fundamental de qualquer sociedade que se preze. Disciplina em tudo. Horas de chegada, de estudo, de ir para a cama (dormir o suficiente), etc.
Exercitando a imbecilidade generalizada, curte-se o canudo do 12º com uma viagem a Espanha onde se apanham bebedeiras em cascata, ao som de música chunga. Só se acorda quando o Sol se põe, vai-se para a cama mal ele desponta. Fornica-se muito também.
Conhecer, de facto, o local para onde se vai? Só se for as reives lá do sítio. Que outra coisa poderia ser?
... e por aqui, provavelmente, me fico. Já teclei mais do que suponha ser necessário para explicar o óbvio.
Resposta:
Começa por estabelecer que a matéria é o elo de ligação entre o professor e o aluno. Eu considero que o professor é o elo de ligação entre a matéria e o aluno. Cabe ao professor explicar da melhor maneira possível a matéria estipulada pelo ME.
Eu nunca disse que queria que os alunos decidissem a matéria a ser leccionada/aprendida. Isso não era uma Educação centrada no Aluno, mas uma Educação feita pelo Aluno (tal como acontecia pouco tempo depois do 25 de Abril, quando os alunos quase mandavam nos professores...).
O conceito de Educação centrada no Aluno é muito mais simples: deve ser o aluno o principal considerado nas decisões relativas à Escola, porque é o aluno o centro natural da Escola.
A Escola, mais do que ensinar, deve educar. Não podemos deixar às famílias a responsabilidade de criar toda uma geração. Até porque há famílias e famílias... Se assim fosse, havia muitos que tinham uma má educação, só porque vêm de uma família que não educava bem. Era injusto. (e perdoe-me se a Justiça é um conceito demasiadamente politicamente correcto)
A Escola deve educar.
É daqui que parte a minha posição da Escola centrada no Aluno. Se a escola deve educar, que tipo de educação damos para obtermos, no final, que tipo de sociedade?
Há que definir que tipo de sociedade queremos para o novo século: se uma sociedade mais livre, democrática, justa e responsável, ou se uma sociedade de hierarquia injustificada, repressão, injustiça e “respeitinho”.
Se optarmos pela primeira, queremos, naturalmente, uma Educação que incuta estes valores na futura geração.
Para incutir a liberdade, nada melhor que dar liberdade. Para incutir democracia e justiça, nada melhor que estabelecer um modelo de ensino em que a relação professor-aluno e aluno-aluno seja mais democrática. Para incutir a responsabilidade, nada melhor que requerer responsabilidade (o que só pode ser feito se houver liberdade...).
A Sociedade de amanhã vai reflectir a Escola de hoje.
A desresponsabilização do aluno é fruto da Educação centrada no Professor. Se acreditamos que é o professor o elemento principal da Escola, é porque achamos que ele deve ser o responsável pelo sucesso dos alunos. A lógica da Educação centrada no Aluno é:
O Aluno não aprende? Culpa dele. O que interessa é educá-lo para a liberdade, responsabilidade, democracia e justiça.
quarta-feira, março 28, 2007
A Escola Centrada no Aluno e a Educação mais competitiva
Competitividade. Concorrência. A Escola, se quer ser mais democrática tem de ser, naturalmente, mais competitiva.
1 Como já disse aqui e aqui, sou a favor da escolha de escolas. Se é notório que todas as escolas têm condições diferentes, tem de haver a possibilidade de escolha para os alunos e para as famílias. Dessa maneira, não ficam os dos “bons bairros” com a boa escola e os dos “maus bairros” com a pior escola. E se todos quiserem ir para a mesma escola? Tem de haver um sistema de vagas, onde o critério é o aproveitamento escolar. Prefiro este critério do que o critério do dinheiro que os pais têm... Os alunos são pressionados a ter melhor aproveitamento para poderem escolher a escola que querem. A Escola Pública tem de se basear neste princípio: somos todos iguais, mas temos apetências diferentes, que têm de ser estimuladas.
2 Se existe maior autonomia por parte dos alunos, naturalmente existe maior independência. Se há maior liberdade na gestão do tempo, os alunos tomam consciência que têm de lutar por eles próprios, aproveitando as ajudas dos professores.
3 Sou a favor da redução da carga horária obrigatória e do aumento das horas de apoio, que seriam aulas obrigatórias para os que têm mais dificuldades e facultativas para os outros (ver este texto, ali em baixo). Os alunos que não quisessem de maneira nenhuma ir a estas aulas (para aproveitarem melhor o tempo, para se divertirem, para fazerem o que quisessem), ir-se-iam esforçar para terem bons resultados, a fim de não serem obrigados a ir às aulas de apoio...
Actualmente, o bom aluno não tem recompensa. Ao bom aluno, pelo contrário, exige-se-lhe maior participação, ajudar os colegas, mais trabalho...
Uma Educação Centrada no Aluno premiaria os melhores com menos horas obrigatórias.
terça-feira, março 27, 2007
O século das escolhas
Reduzir a carga horária obrigatória e aumentar as horas de apoio, que seriam facultativas para alguns (os bons e médios alunos) e obrigatórias para outros (aqueles que tivessem dificuldades). Esta é a estratégia que deve ser seguida pela Escola. Aumenta a concorrência saudável entre os alunos e cria espaços onde é mais fácil ensinar e aprender.
Mas como criar este sistema?
Se há menos aulas, os professores vão ter de cumprir as horas de trabalho noutras actividades, nomeadamente nas aulas de apoio. Além disso, não há falta de professores... É fácil criar este sistema, hoje, em Portugal.
A Redução da Carga Horária e aumento das Horas de Apoio seria boa para
a) Professores:
Nestas aulas, haveria menos alunos, o que facilitava a transmissão de conhecimentos. Sendo a aula facultativa (para alguns) e obrigatória (para outros, que a considerariam uma ajuda extra), cria-se um ambiente ainda mais descontraído, ou seja, ainda mais fácil de dominar por parte do professor. É por isto que eu digo que a Educação Centrada no Aluno é melhor para os professores. Continuam a haver as aulas normais, embora menos tempo. Criam-se mais aulas de apoio onde tudo é facilitado...
É muito complicado gerir uma turma de 25 alunos. É ainda mais complicado gerir uma turma de 25 alunos que não querem estar na aula!
b) Alunos
Continua a haver as aulas obrigatórias para todos (aulas base), onde não há espaço para esclarecimento de dúvidas nem exercícios. Dá-se a matéria e recomendam-se exercícios para casa.
Quem achar que percebeu a matéria, vai fazer o que quiser.
Para quem quer, de livre vontade, assistir a uma sessão de esclarecimento de dúvidas, resolução de exercícios e apoio ao estudo, vai às aulas extra, onde os professores explicam mais facilmente a matéria (Os encarregados de educação poderiam assinar um papel onde indicam que querem que os seus educandos vão a todas as aulas de apoio, tal como acontece hoje).
Isto dá maior liberdade aos alunos, premeia os bons alunos, ajuda os alunos a perceberem mais facilmente a matéria (porque existem menos alunos para o mesmo professor), reduz as horas para quem quer menos horas e aumenta as horas para quem quer estudar mais... é bom para todos.
c) Sociedade futura
Se educamos uma geração no sentido da escolha, da liberdade e da responsabilidade, teremos uma sociedade com esses valores implementados. Só com uma Educação centrada no Aluno é que podemos ter uma Sociedade centrada no Indivíduo.
Porque o século XXI será o século das escolhas.

