terça-feira, maio 08, 2007

Santana Castilho, hoje no PÚBLICO

(...)
"3. Errada está a quebra do consenso secular entre a família e a escola e esta e a sociedade em geral, quanto à orientação das gerações mais novas. A escola não se realiza sem sacrifício, disciplina e trabalho. Mas, fora da escola, a indústria da comunicação e do espectáculo faz a apologia do prazer imediato, do consumo supérfluo, da extravagância e do efémero. Os pais deixaram de ser os aliados primeiros do professor na modelação dos filhos. Hoje, delegam neles todas as responsabilidades, mesmo as indelegáveis. E depois acusam e exigem. Alguns batem nos professores. Em nome de direitos individuais, designadamente da carreira profissional e da fruição da vida e do dinheiro que ganham, têm cada vez menos filhos. E para os que tardiamente decidem gerar, exigem da escola e dos professores, desta feita em nome de direitos sociais, que sejam, cumulativamente, pais e mães por delegação, educadores sexuais, ambientais, rodoviários e cívicos, médicos e psiquiatras e tudo o mais que o relativismo laxista em que caímos despeja na escola.

4. É a esta luz que as palavras de Cavaco, convidando, no dia da liberdade, os jovens a não se resignarem, soam a ocas de consequências. A via reformista que ele suporta tem estripado da escola tudo o que forma cidadãos livres e autónomos. Amputando a Literatura e a Filosofia, impondo Bolonha, diminuindo o impacto da formação inicial livre e substituindo-a pela que interessa, ao longo da vida, à actividade económica, ter-se-ão, cada vez mais, jovens resignados a salários de 500 euros ou ao desemprego.

5. O mesmo registo permite compreender a triste ideia de o Governo pôr a jornalista Judite de Sousa a vender jornais e o treinador Carlos Queiroz a cortar relva, para publicitar as novas oportunidades e a qualificação dos portugueses. Os cartazes desqualificam e humilham profissões dignas e socialmente úteis, em nome de ideias bacocas de sucesso. A economia moderna explica-os, explicitando o conceito de criação económica de valor: o que dá valor a uma coisa não são os valores que lhe subjazem ou não, mas sim o valor que o público, o mercado, as audiências, lhes atribuem. É triste, mas é assim. Por isso Sócrates ria enquanto Paulo Rangel falava verdade no dia da liberdade. Por isso 70 mil acorreram ao chamamento. Por isso o povo, cada vez mais vigiado e esmifrado, aguenta, resignado, contrariando Cavaco."

2 comentários:

Range-o-dente disse...

Retirando as arremetidas em relação ao mundo político, o artigo é globalmente correcto.

Mas a apologia desastrosa do imediato, etc, está também fortemente enraizada no Ministério da Educação.

A apologia de que a escola terá, em último caso, que parir também as crianças, está enraizada no Ministério.

A paranóia absurda de que a educação dos catraios não podem ser deixada ao cuidado dos pais está firmemente enraizada no Ministério.

Na maioria das vezes o pessoal eleito (e seus nomeados) está de acordo com este ststus-quo, outras vezes um pouco menos, mas, mesmo nestes casos, a "máquina-ministério" tem-los conseguido trucidar.

E a "classe" tem responsabilidades na coisa desde que cada professor (cada vez mais) tem abandonado a sua vocação de intelectual - aliás, teimar nela chocará inevitavelmente com a "orientações pedagógicas" reinantes.

J. Moedas Duarte disse...

Subscrevo algumas coisas do S. Castilho mas... o homem é um bocado desbocado.E continuo a achar hilariante aquela ideia do "país claustrofóbico" inventada pelo sr. Paulo Rangel no discurso de 25 de Abril na Ass. Rep.e que o S. castilho aplaude.
Haviam de ter vivido no tempo do Salazar para saber o que é a tal claustrofobia... Sei do que falo, vivi isso.

Falam de fartos, acho eu...