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sexta-feira, março 28, 2008

Gostava de ter escrito isto:

Vítor Dias, no blogue O Tempo das Cerejas:

"Ontem, na Quadratura do Círculo
O velhíssimo truque

Ontem, na "Quadratura do Círculo", na SIC Notícias, apenas com a participação de Pacheco Pereira e Jorge Coelho discutiram-se fundamentalmente dois assuntos : a liberalização dos horários de comércio, sobretudo a abertura ao domingo reclamada pelos hipermercados e a questão da violência e autoridade nas escolas a propósito do recente e conhecido caso, aliás infindávelmente falado e com a repetição do famoso vídeo até à exaustão ( e «banalização» como muito bem disse Pacheco Pereira).
Repare-se agora no que aconteceu : em matéria de liberalização dos horários dos supermercados (designadamente a sua abertura ao domingo) tanto Pacheco Pereira como Jorge Coelho, cada um no seu estilo, teceram loas a esta possibilidade, sublinharam o enorme apoio que conta entre os consumidores e enfatizaram o seu apoio a tudo o que represente uma maior liberdade para estes e uma maior adequação às suas conveniências ou apetências. Jorge Coelho, referindo-se aos trabalhadores do sector, deu-se mesmo ao luxo de invocar que há muitos sectores sujeitos a horários especiais (ele falou mesmo em serviços de 24 horas) exquecendo-se entretanto da distinção que importa fazer entre serviços públicos essenciais à vida da comunidade (transportes, hospitais, energia, etc) e horários de consumo. E tudo isto e muito mais que disseram não impede que, um dia destes noutra onda, possam convictamente verberar o excesso das derivas consumistas depois de ontem quase terem proclamado a legitimidade de uma espécie de «ditadura dos consumidores» sobre todos os outros valores e interesses. E já que falaram da petição, posta a circular nas grandes superfícies pelos seus donos, e que teria recolhido 250 mil assinaturas, então eu sinto vontade de contar o caso de um amigo meu que, convidado pela caixa de um hipermercado a assinar a petição, se recusou e teve a grata recompensa de receber um sorriso de simpatia e agradecimento da referida empregada.
Entretanto, logo de seguida, Pacheco Pereira e Jorge Coelho (e o moderador Carlos Andrade) passaram ao tema da violência nas escolas e aí, entre muitos outros aspectos, ambos não deixaram de referir como muitas mudanças (relativas ao emprego, aos transportes, aos horários, a feminização da mão-de obra etc.) que vêm de trás modificaram poderosamente as condições para os pais acompanharem devidamente a educação dos seus filhos e o seu comportamento e atitudes na escola.
E a nenhum dos dos dois passou pela cabeça por um segundo que o que tinham dito sobre a liberalização dos horários das grandes superfícies só podia via a agravar, em certa escala e pelo menos quanto aos e às profissionais do sector, o fenómeno que, passados uns minutos, estavam a reputar de muito influente nas situações de indisciplina e outras das escolas.
Bem vistas as coisas, o que ontem aconteceu na "Quadratura do Círculo" foi pura e simplesmente mais uma manifestação de um velhíssimo truque usado por algumas forças políticas (designadamente o PS e o PSD), órgãos de soberania e incontáveis personalidades: ou seja, sempre lamentarem as consequências e contra elas inflamadamente protestarem e sempre generosamente absolverem as causas que as provocam."

terça-feira, outubro 30, 2007

Coisas sérias

Excelente série de quatro posts, do blogue Zero de Conduta. Todos eles são sobre educação, criticando a crítica que é feita por alguma blogosfera liberal à escola pública:

Sobre as diferenças entre escola pública e privada.
Sobre a "qualidade dos métodos" oferecida pelas privadas, inaplicáveis no ensino público.
Sobre o cheque-ensino
Sobre os perigos de uma escola estatizada e a iniciativa privada (que tem de ser paga pelo estado, claro... ou não fôssem eles liberais...)

Gosto sobretudo da comparação entre três escolas privadas que são da mesma empresa (ou companhia, ou lá o que é...), ensinam segundo o mesmo método, mas com resultados bem diferentes... Porque duas são subsidiadas pelo estado e recebem alunos que não pagam por estar no colégio, e a outra não tem essa abrangência.

Parabéns ao Pedro Sales, do ZdC

segunda-feira, outubro 01, 2007

Por onde começar?

Na edição de Outubro da revista Blitz, há uma entrevista com Manu Chao. Houve uma pergunta, ou melhor, uma resposta, que me interessou particularmente:

"Blitz: Mas por onde se começa [a anti-globalização]? Por boicotar as gigantescas companhias multinacionais?

Manu Chao: Há muita coisa que podes fazer. Penso que a primeira (e a mais importante) é parar com este consumismo louco. A educação é o que mais preocupa - na verdade, é o grande problema do mundo actualmente - e a solução passa por ela. Acho que o grande problema do mundo é que, nos bairros, não são as famílias que educam os seus filhos, nem as escolas. As crianças são educadas pela televisão. E a única educação que a televisão lhes dá é: «consome, consome, consome; percisas desta última novidade, e desta, e mais desta, porque, se não tiveres esta última novidade, não és ninguém»... E é assim que as crianças são educadas! Acho isso bastante perigoso, não podemos continuar a consumir a este ritmo."
(o negrito foi acrescentado por mim)

É por estas e por outras, que ele é o meu músico favorito. Não me farto de ouvir as suas músicas, não desisto de entender a sua mensagem. Grande Manu Chao!

Para os fãs, mais uma boa notícia nesta entrevista: Manu Chao vai lançar um álbum em português. Deve ser para compensar os portugueses que nunca o fizeram...

sábado, setembro 15, 2007

Uma questão de Liberdade, mas sobretudo de Igualdade

Ontém, no Expresso:


Sob a presidência de Maria Barroso, realizou-se no passado fim-de-semana em Lisboa, na Universidade Católica, o Simpósio Internacional da OIDEL, associação europeia de escolas independentes, dedicado ao tema 'A escolha da escola face à justiça social: dilema ou miragem?' É difícil exagerar a importância da iniciativa e a profunda actualidade do tema.

Parece-me particularmente feliz que o tema da escolha da escola tenha sido directa e explicitamente ligado à justiça social. Na minha opinião, seguramente falível, a escolha da escola é uma daquelas pequenas mudanças estratégicas que pode ter enormes consequências melhoristas: na qualidade do ensino e na justiça social.

Hoje, as famílias têm de recorrer à escola estatal da residência ou local de trabalho. Se pudessem escolher independentemente desse constrangimento, isso introduziria concorrência entre as escolas do Estado para atrair os seus alunos. Teriam de melhorar a qualidade e anunciar essas melhorias aos seus potenciais clientes: as famílias. Quanto menos alunos tivessem, menos recursos teriam, e vice-versa. Está aqui um dos mais poderosos incentivos para melhorar.

Se, além disso, a escolha fosse alargada às escolas particulares que preenchessem certos requisitos básicos, os efeitos benéficos da concorrência seriam ainda mais fortes. Na Suécia, este já é o caso. O Estado fixa um custo por aluno e paga-o integralmente à escola, estatal ou privada, que a família escolher. Para beneficiarem deste sistema, as escolas privadas têm de aceitar não cobrar ao aluno mais do que aquilo que recebem do Estado. Desta forma, o ensino continua gratuito para o aluno, mas é fornecido em regime de concorrência por entidades estatais e privadas. (Outras escolas independentes podem cobrar propinas mais altas, mas não beneficiam do pagamento do Estado).

Ganha-se com isto eficiência e justiça social. Um dos grandes problemas actuais é que os mais pobres ficam 'acorrentados' às escolas locais, muitas vezes mais problemáticas e menos boas. Isso perpetua o ciclo da pobreza e restringe as oportunidades de vida dos mais desfavorecidos. A escolha da escola libertá-los-ia dessa armadilha de pobreza. Para facilitar a deslocação às famílias com menos posses, o Governo inglês, por exemplo, está a introduzir autocarros escolares para transportar alunos dentro de limites razoáveis.

Um pouco por toda a Europa a ideia da escolha da escola pelas famílias vai fazendo o seu caminho. Era tempo de podermos discuti-lo serenamente em Portugal. Foi isso que aconteceu no simpósio da OIDEL.


João Carlos Espada


Concordo em parte com esta posição de João Carlos Espada. A utopia irrealista da suposta igualdade de recursos materiais e humanos entre as escolas públicas, em vez de criar igualdade, cria desigualdades. Os melhores bairros ficam com as melhores escolas. Porquê? Porque os professores, quando são colocados, colocam como opção prioritária as escolas em zonas menos problemáticas. Se o critério fosse o aproveitamento em vez da área geográfica, haveria, certamente, mais justiça. Um aluno, por muito bom que seja, se for obrigado a ficar numa escola má (porque, repito, existem boas e más escolas públicas, quer queiramos quer não), dificilmente consegue aproveitar as suas capacidades.

Acusar-me-ão de querer uma escola elitista. De certa maneira é verdade: não tenho nada contra um sistema elitista, do ponto de vista das capacidades. Um sistema onde os melhores alunos ficam com as melhores escolas, em oposição ao sistema actual, onde os mais ricos ficam com as melhores escolas (pessoas com dinheiro moram nos melhores bairros onde existem boas escolas... pessoas sem dinheiro moram nos piores bairros, onde existem más escolas.)

Ou se uniformiza as condições e recursos humanos de todas as escolas do país- o que me parece completamente impossível- ou se introduz um sistema de vagas, onde o critério são as capacidades, não o salário dos pais.

A minha divergência em relação à posição de João Carlos Espada é a penas uma: ele defende que as escolas privadas devem entrar nesta equação. Eu defendo que este é um sistema que só deve incluir escolas públicas. Os melhores alunos (e os outros) têm de estar no sistema público, onde os critérios e o programa são claros, objectivos e controlados pelo Estado. Quem quer privados, que pague. Esse é o critério da Escola Privada. Não pode ser o critério da Escola Pública.




quinta-feira, setembro 06, 2007

Há professores a mais e ministra a menos, diz o Jumento

Excelente ponto de situação do Jumento:

"Quando a ministra da Educação diz que a oferta de professores é maior do que a procura tem razão, mas a forma como aborda este problema é menos própria e revela uma falta de consideração pelos professores que é inaceitável num responsável pela educação. A ministra fala dos professores como se fosse o encarregado de uma obra pública a dizer aos serventes de pedreiro que procurem outra obra, porque para a semana já não há trabalho."

A ler na íntegra aqui.

sábado, julho 21, 2007

GAAVE - GABINETE DE AUTO-AVALIAÇÃO EDUCACIONAL

Artigo de João Miranda, hoje no DN, com destaque na íntegra (sublinhados nossos):

As notas dos exames do secundário oscilam ao sabor das alterações dos programas e da organização do ensino secundário e, sobretudo, ao sabor do tipo, duração, dificuldade e critérios de correcção das provas. Quando as notas são boas, a ministra da Educação atribui os bons resultados às excelentes políticas do seu ministério. Quando as notas são más, a ministra em vez de responsabilizar as políticas do seu ministério reafirma a necessidade de aprofundar essas mesmas políticas. Claro que os dados que existem não permitem estabelecer nenhuma relação de causa e efeito entre políticas e resultados, mas para a ministra isso não interessa nada. Ela participa no jogo político através da exploração de oscilações fortuitas e estatisticamente irrelevantes das notas do secundário.

Os exames do secundário e os respectivos critérios de correcção são produzidos pelo GAVE, Gabinete de Avaliação Educacional, que é um departamento do Ministério da Educação. Isto significa que o Ministério da Educação é ao mesmo tempo o prestador dominante de serviços de educação e o respectivo avaliador. O ministério tem seguido políticas erráticas alterando frequentemente os programas de ensino e, por intermédio do GAVE, alterando os critérios de correcção e a dificuldade dos exames de ano para ano. O GAVE, para além de se ter revelado incapaz de produzir exames sem erros, tem-se revelado incapaz de criar exames padronizados que possam ser comparados de ano para ano, ou mesmo de chamada para chamada. Por isso, o mais provável é que as variações positivas das notas do secundário não sejam um sinal de melhoria do ensino, mas um sinal de que o ministério é incompetente, ou mal-intencionado, e não consegue estabelecer padrões de avaliação constantes. Dado que o GAVE é ao mesmo tempo um departamento do Ministério da Educação e a instituição que avalia os resultados do trabalho desse ministério, existe o risco de manipulação política dos exames. Como a opinião pública associa notas elevadas à competência da ministra, o Governo tem um incentivo para premiar um departamento de avaliação que inflacione as notas dos exames. Por outro lado, o GAVE pode adulterar a avaliação através da produção de exames mais fáceis e da fixação de critérios de correcção mais benevolentes. O público não tem nenhuma garantia de que o GAVE não recorre a estes estratagemas, por um lado porque o GAVE tem interesse em agradar ao Governo e, por outro, porque o GAVE não é auditado por entidades externas nem segue procedimentos transparentes. A instituição que mais avalia não é avaliada por ninguém e não publica os procedimentos que deram origem a um exame específico, nem os critérios usados para padronizar os exames, nem o currículo académico dos autores dos exames.

terça-feira, julho 10, 2007

Afrontar o "politicamente incorrecto" é a coisa mais politicamente incorreta que se pode fazer

Via oBiToque, texto de G. Mbeki:

"Eduquês" em discurso desonesto


Sei que o atraso é grande, mas cheguei agora à leitura do comentado livro de Nuno Crato "O Eduquês em discurso directo - uma crítica da pedagogia romântica e construtivista". Sem querer contestar a existência dessa linguagem hermética, complexa e floreada, que frequentemente esconde um deserto de conteúdo e à qual Marçal Grilo tão bem chamou eduquês (linguagem que se encontra também fora das discussões sobre educação, sendo encarada por muitos como sinal de erudição e pensamento complexo), o pequeno livro de Nuno Crato vai muito além da ideia do ex-ministro.

Exemplarmente bem escrito, como aliás é costume nos textos do matemático, por entre a profusão de citações e referências bibliográficas surge um chorrilho de desonestidades intelectuais, repetidas interpretações perjurativas, jocosas e descontextualizadas de frases dos colunáveis da educação portuguesa, e uma recorrente deturpação das ideias e dos princípios que estão subjacentes a esta ou aquela afirmação. O ilustre matemático e divulgador de ciência mais parece um adolescente com dotes de escrita a quem roubaram a amada, e que se vinga ridicularizando o outro Romeu de todos os modos possíveis, independentemente da lógica ou honestidade intelectual.

Enquanto despeja o seu ódio intestino às correntes pedagógicas vai demonstrando um desconhecimento do funcionamento da sala de aula, dos problemas e desafios que são postos à escola actual, e de muitas das teorias que ele próprio cita para justificar os seus ataques. São interpretações convenientes, limitadas o suficiente para servirem o propósito.

Espremendo o texto escorrem uma gotas do liberalismo de quem passou metade da vida a adorar o modelo de ensino dos EUA, misturados com um conservadorismo atroz. Nuno Crato acaba por rejeitar a validade do método de construção do conhecimento científico, ao querer parar todas as mudanças que as correntes pedagógicas actuais defendem, com as deficiências, fragilidades e excessos que são inerentes às teorias de qualquer área do conhecimento (e que só podem ser ultrapassadas com a discussão académica e social). Em vez disso defende que se volte atrás, que se regresse aos métodos antigos que se sabe funcionarem, até se provar a validade das novas ideias.

Pergunta-se se os irmãos Wright tivessem esperado pelo desenvolvimento de um avião que nunca cairía seríamos hoje capazes de ir de Lisboa a Nova-Iorque em poucas horas, para levar a injecção mensal de liberalismo.

O que este regresso aos métodos antigos esconde é uma total desvalorização dos desafios de universalização do ensino, da desigualdade de condições económicas e culturais no acesso ao conhecimento (uma golpada no conceito de classe e dos códigos diferenciados, como um bom liberal deve fazer), sendo estes problemas completamente independentes da questão da "utopia" igualitária a que comummente são colados.

O que se sabe é que os métodos antigos funcionam muito bem para quem é muito bom. O que Nuno Crato não responde (nem a pedagogia moderna - ainda) é como fazê-los funcionar muito bem para todos os outros. Ou se calhar isso não é importante..."

Link

quinta-feira, julho 05, 2007

Teuria dus Numarus - O caso do professor Juvenal!

O professor Juvenal lecciona aulas de Contabilidade e Administração no ensino Secundário.
É um professor feliz, nos dias em que não anda infeliz...que são muitos...pelo menos ultimamente!
O Professor Juvenal lecciona (se calhar seria mesmo melhor dizer "dá aulas"...últimamente estas têm estado em época de saldos...) na Escola da Porcalhota de Baixo (obviamente que não posso dizer os nomes "à séria", senão inda levo cum proceso!), mas está lá porque tinha horário zero na Escola da Porcalhota de Cima! Até aqui parece uma história normal, certo?
Mas não é lá muito normal! No mínimo...ridicula!!! Não para o Professor Juvenal, claro, mas sim para toda esta rede educacional!
Ora, o Professor Juvenal lá teve que ir para a tal Escola da Porcalhota de Baixo (a falta de horário para ele na Escola da Porcalhota de Cima deve-se a problemas do foro diplomático que envolvem esta escola e a vila onde ela se insere...é muito complicado de explicar...fica para outra altura...outro post...), mas numa altura mais que péssima da vida dele...tinha muito recentemente perdido um familiar muito próximo...e tudo isto acumulado fez-lhe muito mal ao neurónio, como seria de esperar.
Mas mesmo assim, o Professor Juvenal reuniu todas as suas forças e lá foi, estóicamente, durante o primeiro período dar as suas aulas (não vale a pena referir a distância porque provavelmente muitos poderiam dizer "só? eu tenho que percorrer o triplo!"...)...MENTIRA...estoirou em Novembro! Sai um atestado médico de um mês...a juntar as férias do Natal, o Professor Juvenal regressou ao serviço no inicio do segundo período! Mas por pouco tempo...pois...ainda não andava lá muito bem...e...falhou o segundo dia de aulas...estão a ver mais ou menos o que aconteceu?...
A CHEFE DA ESCOLA DA PORCALHOTA DE BAIXO MANDOU LOGO O CASO PARA A JUNTA MÉDICA, lavando dali as suas mãos, como Pôncio Pilates.
E aqui é que começa o âmago desta questão...
A Junta Médica, instituição com o objectivo de ter a última palavra na avaliação psicológica e física do estado de saúde de qualquer professor, só mandou chamar o Professor Juvenal...estão sentados?...no final do segundo período! Mesminho no último dia de aulas! Ou seja, o Professor Juvenal fico em casa 3 meses, aos cuidados dos seus médicos particulares, e amigos.
E lá foi o Professor Juvenal para a Avenida Guerra Junqueiro, para mostrar todos os relatórios psicológicos que atestavam o seu estado de saúde. Quando o Professor Juvenal lá chegou e viu o estado dos "pobrezinhos" que lá estavam à espera (e esta espera era por ordem de chegada...tipo talho!) pensou "de certeza que não estou tão mal como estes infelizes! de certeza que me mandam dar aulas no inicio do terceiro período!". E o Professor, que até já estava melhor do seu neurónio, com vontade de sair de casa...mesmo tratando-se de ter que ir para a Escola da Porcalhota de Baixo..., lá esperou pela sua vez. Quando finalmente é chamado, depara-se com 3 "múmias", não embalsamadas, mas quase em estado de húmificação, que apenas lhe disseram o seguinte "Os seus relatórios?", e o Professor colocou o relatório da psiquiatra em cima da mesa! Mas...falatava a vinheta da psiquiatra! Ora, ser ou não ser eis a questão...branco é galinha o põe...eitar cedo e cedo erguer, tanto bate até que fura...o Profesor Juvenal veio para casa sem o pepel que normalmente dão lá na junta, no qual diz se se está ou não apto a retomar funções!
...vou parar aqui...vou fazer uma pausa...
Pensemos...então a Junta Médica para que serve? Para avaliar o relatório de outros médicos?...
...ok...Continuemos, "irmãos!"
Bem, o Professor Juvenal ficou de ir ter com a psiquiatra para a Senhora lhe colocar a vinheta no relatório. E a Junta Médica ainda disse ao Professor que ele é que tinha que marcar outra Junta Médica, como se de uma consulta se tratasse...ao que o Professor perguntou se não seria a DREL que tratava dessas coisas, o que na realidade é verdade.
Estava então o Professor Juvenal a terminar as férias da Páscoa, já com a esperança (embora forçada...) de ir trabalhar no terceiro período, quando...começam as aulas...passa a 1ª semana, a 2ª, a 3ª,..., a 5ª, quando 3 semanas antes do final do período (entretanto o professor Juvenal já estava a dar em doido de estar em casa, sem fazer népia...isto pode ser caricato, mas só quem passa por elas é que pode entender!) o Professor Juvenal recebe a cartinha a chamá-lo para nova Junta Médica...
...perguntem lá quando, amigos?...NO ÚLTIMO DIA DE AULAS DO TERCEIRO PERÍODO! Incrível não? Como as coisas se resolvem rapidamente neste país!
E lá vai o Professor Juvenal para a Jjunta Médica, com o bendito relatório, cheinho de vinhetas, no qual constava que o professor estava aptérrimo para exercer as suas funções (que era o que já dizia no anterior, no fim do 2º período).
O Professor chega lá, depara novamente com as 3 "múmias", elas pedem-lhe o relatório, lêm o relatório, e passam-lhe o tal papel para ele se apresentar ao serviço na 2ª feira seguinte.
Finalmente!
MORAL DA HISTÓRIA:
1º) É muito estranha...quer dizer, o P. Juvenal esteve o terceiro período todo em casa sem necessidade!
2º) O Estado esteve a pagar 2 ordenados, embora o do professor Juvenal fosse apenas 5/6 do usual (1/6 é retido), sem necessidade...porque é que não chamaram P. Juvenal antes do final do 3º período? Para não mandarem o outro professor embora? É por essas e por outras que os nossos aumentos estão congelados...
3º) E, afinal de contas, que grande poder de decisão tem a Junta Médica, que se baseou no relatório duma psiquiatra para atestar o stado de saúde do p. Juvenal?
...eu é melhor não dizer mais nada...e o outro pobrezinho morreu porque o mandaram dar aulas...mas não vou entrar em detalhes que já todos sabemos...Paz à sua alma.
Posto isto, acabei de saber, neste preciso momento, que uma colega minha foi à Junta Médica pedir a reforma (uma professora que se encontra na escola, não lecciona, mas faz serviço administrativo! está ao abrigo dum decreto não sei das quantas...), e estou a falar duma pessoa com 64 anos, e as "múmias" da junta Médica desancaram a pobrezinha, quase correram com ela a pontapé, teve inclusivamente que sair pela porta dos fundos, tal não era o estado de nervos em que ela estava...porque lhe negaram a reforma antecipada uma vez que...ELA NÃO TINHA FALTADO NO PRESENTE ANO LECTIVO!!!
...decididamente, eu não digo mais nada, vou fazer crochet, vou fazer a planificação das minhas ricas actividades para o meu maravilhoso projecto de teatro...e é asim que me vou mantendo feliz neste ensino, à beira mar plantado...mar? não! LODO!!!
Câmbio!
Desligo!

O Estado miserável e o professor Charrua

O Jumento aponta baterias ao Estado miserável da educação. Mais um coice certeiro, a ler no contexto, no palheiro original:!

ESTADO MISERÁVEL

O caso do professor que atingido por um cancro e já depois de não poder falar foi considerado apto para o exercício de funções por uma junta médica que deliberou sem o ter convocado revela o ponto a que chegou a consideração que o Estado e algumas das suas instituições têm pelos seus funcionários.

Como é possível que os médicos de uma junta médica tenham decidido desta forma? Como é possível que o director-geral da Caixa Geral de Aposentações tenha ignorado o apelo que lhe foi endereçado pelo professor? Como é possível que a máquina do Estado tenha considerado apto para trabalhar um professor com afonia total e incurável, doente de cancro?

A DREN diz que fez tudo, mas fez o quê? Não questionou a injustiça, não apoiou o apelo do professor à CGA, limitou-se a proporcionar-lhe melhores condições de trabalho.

A forma como este funcionário foi tratado é uma indignidade que não pode ser ignorada. Se a legislação é inadequada que se mude a legislação, se o director-geral da CGA não fez o que devia ter feito que se mude o director-geral, se os membros da junta médica actuaram com má fé que se mudem as juntas médicas. Uma coisa é certa, algo tem que mudar.

CASO PROFESSOR CHARRUA

A acusação ao professor Charrua elaborada por um instrutor ligado ao partido da directora da DREN e que depende desta para continuar a beneficiar de uma colocação à porta de casa diz que o professor ofendeu a mãe do primeiro-ministro e que o fez em pleno corredor. O professor Charrua assegura que deixou a progenitora de tão ditoso filho sossegada e que as manifestações de admiração pelas elevadas qualificações académicas do primeiro-ministro foram feitas em privado.

A conclusão é óbvia, um deles, o instrutor ou o professor, mente e se é o instrutor que conclui por uma mentira estamos perante um grave atentado a todos os valores da democracia. Além de um processo disciplinar se tratar de um procedimento em que uma hierarquia tem a faca e o queijo na mão, é evidente que esse processo está inquinado, toda a gente sabia qual seria a acusação a partir do momento em que a directora da DREN deu uma entrevista ao DN antecipando a acusação.

Alguém devia investigar todo este processo pois não é aceitável usar a lei de um Estado de direito para o transformar numa fantochada. Mais importante que a honorabilidade da progenitora de Sócrates é a democracia.

Daqui faço um repto ao Governo: proceda a uma sindicância sendo esta conduzida por juristas independentes a designar pela Ordem dos Advogados.

terça-feira, julho 03, 2007

Um excelente post de Paulo Vilela, "Sociedade da Informação : a demissão do estado", a denunciar a promiscuidade do Estado com a Microsoft e outros grandes tubarões, em detrimento do software livre:

"Poderá à primeira vista parecer estranho falar de demissão do estado no que toca à sociedade da informação, quando amiúde são lançadas novas iniciativas. Mas há nela um padrão preocupante.

UM
O estado lança uma iniciativa de literacia digital, e fá-lo através de um site fornecido por uma empresa que a aproveita para promover os seus produtos, que são já largamente predominantes.


DOIS
O estado lança uma iniciativa de colocar computadores e banda larga móvel nas mãos de milhares de alunos e professores, sem providenciar a formação no novo sistema operativo e Office que conforme divulgado publicamente os acompanha. Contrata sem concurso público o software da empresa dominante no mercado, cravando mais um prego no caixão da competitividade e da concorrência. Fá-lo porventura de uma forma formalmente legal, mas através do subterfúgio de serem as empresas de telecomunicações a pagar a factura, sem o dinheiro entrar no ciclo de controlo ( e de consultas públicas) do estado.

As ofertas dos vários fornecedores de portáteis parceiros da iniciativa, e dos operadores móveis que pagam a factura são cartelizadas sendo oferecidas aos utilizadores pelos mesmos preços negociados. Deste modo o estado subsidia os concorrentes mais caros para que estes apareçam com o mesmo preço dos mais baratos.

O estado demite-se de promover a concorrência.
Demite-se também de promover a interoperabilidade entre produtos de software

E demite-se de promover a formação nesses novos produtos......
(...)
E NADA
E enquanto aceita todas estas ofertas gratuitas, o estado recusa todas as ofertas de software gratuito que lhe fazem. Os professores não conhecem esses produtos gratuitos, alegam. Pois também não conhecem o Microsoft Office 2007, que é muito mais diferente do Microsoft Office 2003 que o OpenOffice.org.

Enquanto mais e mais estados lançam iniciativas para promover a interoperabilidade e a defesa de normas abertas, condições para assegurar a livre concorrência e um ambiente competitivo, o estado português demite-se e aceita reforçar o predomínio de um só fornecedor de software para a administração pública.


A DEPENDÊNCIA
Ao não promover a competição, o estado só pode negociar melhores condições através do favor de um desconto. Que será pago à custa de outros favores.

Enquanto outros estados mesmo da dimensão do nosso têm fortes equipas de tecnologias de informação que traçam estratégias e asseguram uma validação das tecnologias e normas a adoptar, o estado português tem equipas diminutas, e está dependente dos fornecedores, das suas ofertas e dos seus planos de lançamento de produtos para implementar essas políticas.
Onde está o estudo sobre o impacto do lançamento do Vista e do Office 2007 nas Escolas e na Administração Pública?

Quando o o estado se demite de planear, as políticas dos fornecedores tornam-se a política do estado.

Como estamos a assistir."

Para ler na íntegra no seu Blog Abre-te software.

sexta-feira, maio 25, 2007

Resposta ao mau post

Mau post de Range-o-Dente.

Neste post, Range-o-Dente usa uma táctica antiga: pega num caso isolado, que indigna qualquer um, e mistura-o com uma reflexão sobre os valores da Escola, na tentativa de alastrar a indignação à teoria da Educação centrada no Aluno.

O acto destes alunos não é, a meu ver, producto do modelo de ensino. É producto de outras coisas. Mas, a ser culpa da Escola, é culpa do actual sistema. Não é, de certeza, de um sistema que só existe em teoria (tanto assim é que Range-o-Dente chama-lhe uma teoria do "planeta dos gambosinos").

A Educação centrada no Aluno, actulmente, em Portugal, não existe. Não a culpem de nada que tenha sido feito, porque ela não existe.

No fundo, o que Range-o-Dente quer dizer é: É nestes gajos que querem centrar a Educação?
Generalização. Outra táctica antiga.

quarta-feira, maio 23, 2007

Lamaçal

Eu já sabia que este meu post ia dar origem a insultos por parte de Range-o-Dente. Porque eu sei como funciona Range-o-Dente. Quem não está de acordo com ele, é estúpido. O xadrez não foi a única coisa que aprendeu na Mocidade Portuguesa...

Mas no que se baseia a crítica (seguida de insultos) de Range-o-Dente? No eu chamar "modelo" à sua "Possível saída do lamaçal". Claro que Range-o-Dente não tem um modelo. Para ele a escola é como é, e qualquer pensamento sobre a Escola ideal ou o modelo a seguir é uma coisa do "planeta dos gambosinos". Não percebe que só se podem fazer as medidas pontuais se se tiver um modelo de escola ideal a seguir (uma bitola), que poderá ou não ser alcançado.
Reparem que a sua crítica resume-se ao apelidamento de "modelo". Para Range-o-dente um modelo, um ideal é uma coisa má, a evitar.

Acusa-me de "colocar na minha boca coisas que eu nunca disse".
Vejamos:
O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Modelo da Educação segundo Range-o-Dente:"
O que foi dito por RoD: "Já agora: desafio-o a fazer um comment no seu blog sobre a Escola ideal para si. " Aqui vai:" e depois começou o texto. Ele disse "aqui vai [o comment sobre a Escola ideal]"

O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Dá-se disciplina."
O que foi dito por RoD: "o único caminho trilha-se pela subida de fasquias e a primeira fasquia será a da disciplina." Dúvidas?

O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Se o aluno for bem disciplinado e aprende bem, sobe-se a fasquia, pedindo ainda mais disciplina."
O que foi dito por RoD: "Com uma subida regular de fasquia em relação ao comportamento e ao aproveitamento as coisas melhorariam gradualmente." Ah, totalmente diferente...

O que eu disse sobre o modelo de RoD: "Se o aluno não corresponder, "salta"."
O que foi dito por RoD: "Subindo ligeiramente a fasquia ‘saltariam’ alunos" Pois...


Parece-me que não corrompo as frases de RoD. Não transcrevi o seu texto. Resumi-o às ideias essenciais e comparei-o com o meu modelo.
No essencial, RoD não diz nada. Critica e insulta. E insulta melhor do que critica.

ASSIM «FALHAMOS A VIDA, MENINO»

O Jumento leu o artigo de opinião desta semana de Santana Castilho antes de mim, mas subscrevo por baixo o parecer do director-geral do palheiro:

ASSIM «FALHAMOS A VIDA, MENINO»

«Impressionam os números da adesão ao programa governamental Novas Oportunidades: mais de 250 mil querem certificar-se com o ensino básico e cerca de 75 mil com o secundário. E mais impressiona se recordarmos que, há escassos meses, o tema foi destaque repetido na imprensa, após inquérito de âmbito europeu, por sermos os que menor disponibilidade manifestávamos para regressar à escola e menos valorizávamos a necessidade de formação ao longo da vida. Neste quadro, faz sentido perguntar: que terá acontecido, para tão grande mudança de atitude, em tão escasso tempo?

Da multiplicidade de factores que integram uma possível resposta, destaca-se o oportunismo e a leviandade com que se procura popularizar e facilitar o que suporia trabalho acrescido e sacrifício pesado. O decoro profissional aconselha a não descrever como, em muitos centros, meia dúzia de meses, a tempo parcial, chegam para certificar o conhecimento que exige, no quadro tradicional, cinco anos de escolaridade, a tempo integral. » [Público assinantes]

Parecer:

Santana Castilho é bem capaz de ter toda a razão, pelos números ou os trabalhadores tiveram um vontade repentina de estudar ou tirar o 12.º ano passou a ser mais fácil do que fazer o exame do código. Corremos um sério risco de ver alunos abandonarem a escola para depois recorrerem às "Novas Oportunidades" para obterem o diploma de foram ainda mais fácil do que sucedeu com a licenciatura de Sócrates.

Despacho do Director-Geral do Palheiro: «Afixe-se.»

terça-feira, maio 22, 2007

Diferentes modelos de Escola:

Modelo da Educação centrada no aluno: Dá-se liberdade. Se esta for bem usada, dá-se mais liberdade. Se esta for mal utilizada, exige-se responsabilidades. Esta regra tem de ser conjugada com mudança na maneira como se encara a sala de aulas e a relação professor-aluno.
Ver label "Educação Centrada no Aluno"

Modelo da Educação segundo Range-o-Dente: Dá-se disciplina. Se o aluno for bem disciplinado e aprende bem, sobe-se a fasquia, pedindo ainda mais disciplina. Se o aluno não corresponder, "salta". Ver link

É escolher...

quinta-feira, maio 17, 2007

Praxes...BAHHHH!

Bem, tou boquiaberta com o que vi no post do Baldasse...isto é tortura pior que chinesa! bando de bestas mesmo! odeio praxes!
Nada como no meu tempo...deixem-me contar!! Foi no ano de 1984! creeeedo...que kotinha...uns camolas do 4º ano QUERIAM-ME OBRIGAR a subir para uma mesa para cantar o hino de Portugal...vejam só a simplicidade e a inocência!
E eu? RECUSEI-ME, claro!
E o que é que me aconteceu? NADA! Claro que me chamaram logo "trombuda, antipática, corte, atrasada, e blábláblá..." mas não levaram a deles! Mas também não me tocaram porque havia uma coisa que hoje não há...respeito pela diferença!
Aos poucos lá me foram conhecendo e eu aos outros mil-e-não-sei-quantos do meu rico ISCTE e o que é certo é que no ano a seguir estavam-me a pedir para fazer de enfermeira para montar uma enfermaria falsa...eu ía fazer os toques...achei um escândalo! Não sou puritana mas acho essas brincadeiras uma verdadeira estupidez! Que se brinque sim, mas sem violência e sem pornografia! Isso fica para outros filmes...
A cena mais gira que os do 4º ano fizeram, e que todos os caloiros de 84 caíram que nem patinhos lerdinhos, foi um gaijo curtidissimo, o Paulo Pinto (se leres isto considera-o um grande abraço de saudade daqueles belos tempos) aparecer todo engravatado, com um paleio absolutamente incrível numa aula de História Económica e Social...até tirámos apontamentos!
Mas o mais engraçado é que eu via aquela figura a jogar às cartas (ai o que nós jogávamos às cartas naquele bar...campeonatos de King...fui a exame a 3 cadeiras por me baldar às aulas no 1º ano...para jogar king...) no bar e achava que devia ser um professor muito fixe...quando eu descobri que era um camolas super-repetente que estava a fazer cadeiras do 1º ao 4º ano, passei-me! que figura mais carismática! e havia outras! Foram 5 anos muito bem passados!
E durante esses 5 anos as praxes "evoluiram"..para pior! Cada vez com mais falta de respeito!
É triste!
O meu irmão entrou para o IST em 1991 e queriam obrigá-lo a dar duas voltas à volta do técnico, em cuecas, num dia em que, por acaso, estava a chover...azar...também não cumpriu...mas já foi ameaçado! Mas ninguém lhe tocou!
Há brincadeiras giras que se podem fazer sem magoar ninguém...por isso, que se façam praxes, porque é um baptismo único mas, SEM VIOLÊNCIA!

terça-feira, maio 08, 2007

Santana Castilho, hoje no PÚBLICO

(...)
"3. Errada está a quebra do consenso secular entre a família e a escola e esta e a sociedade em geral, quanto à orientação das gerações mais novas. A escola não se realiza sem sacrifício, disciplina e trabalho. Mas, fora da escola, a indústria da comunicação e do espectáculo faz a apologia do prazer imediato, do consumo supérfluo, da extravagância e do efémero. Os pais deixaram de ser os aliados primeiros do professor na modelação dos filhos. Hoje, delegam neles todas as responsabilidades, mesmo as indelegáveis. E depois acusam e exigem. Alguns batem nos professores. Em nome de direitos individuais, designadamente da carreira profissional e da fruição da vida e do dinheiro que ganham, têm cada vez menos filhos. E para os que tardiamente decidem gerar, exigem da escola e dos professores, desta feita em nome de direitos sociais, que sejam, cumulativamente, pais e mães por delegação, educadores sexuais, ambientais, rodoviários e cívicos, médicos e psiquiatras e tudo o mais que o relativismo laxista em que caímos despeja na escola.

4. É a esta luz que as palavras de Cavaco, convidando, no dia da liberdade, os jovens a não se resignarem, soam a ocas de consequências. A via reformista que ele suporta tem estripado da escola tudo o que forma cidadãos livres e autónomos. Amputando a Literatura e a Filosofia, impondo Bolonha, diminuindo o impacto da formação inicial livre e substituindo-a pela que interessa, ao longo da vida, à actividade económica, ter-se-ão, cada vez mais, jovens resignados a salários de 500 euros ou ao desemprego.

5. O mesmo registo permite compreender a triste ideia de o Governo pôr a jornalista Judite de Sousa a vender jornais e o treinador Carlos Queiroz a cortar relva, para publicitar as novas oportunidades e a qualificação dos portugueses. Os cartazes desqualificam e humilham profissões dignas e socialmente úteis, em nome de ideias bacocas de sucesso. A economia moderna explica-os, explicitando o conceito de criação económica de valor: o que dá valor a uma coisa não são os valores que lhe subjazem ou não, mas sim o valor que o público, o mercado, as audiências, lhes atribuem. É triste, mas é assim. Por isso Sócrates ria enquanto Paulo Rangel falava verdade no dia da liberdade. Por isso 70 mil acorreram ao chamamento. Por isso o povo, cada vez mais vigiado e esmifrado, aguenta, resignado, contrariando Cavaco."

quarta-feira, março 28, 2007

Professor generalista, ou a generalização do desastre

As conclusões da Luísa Araújo, hoje no PÚBLICO, a relembrar os factos esquecidos (ignorados?) pelo ME na decisão de avançar para o professor único até ao 6º ano:

"Os dados são inequívocos. Primeiro, não se pode concluir que uma formação generalista contribua para acabar ou sequer mitigar o insucesso escolar. Segundo, vários países com muito melhor desempenho escolar que Portugal, entre eles a Finlândia, privilegiam a especialização tanto por anos de ensino como por disciplinas. Em Portugal, um modelo de formação de professores generalista que mantém o acompanhamento dos alunos por quatro ou seis anos sem delinear uma área de estudos especializada constitui um potencial agravamento do desastre que já é o nosso sistema de ensino."

segunda-feira, março 26, 2007

A vocação fúnebre das políticas educativas

Da coluna de opinião de Santana Castilho, hoje no PÚBLICO ("A vocação fúnebre das políticas educativas"):

"4. Os veredictos dos tribunais portugueses têm exposto a má qualidade das decisões políticas dos governantes da 5 de Outubro: conto, salvo erro, 10 condenações relativas aos exames de Física e Química, 3 no que respeita a falta de pagamento de aulas de substituição e despachos revogados, por ilícitos. A relativa passividade dos media dá que pensar. A displicência e o silêncio sepulcral dos visados não surpreendem.
(...)
6. Mais um anúncio e mais uma iniciativa inédita: vão ser gastos 940 milhões de euros na recuperação de escolas ao longo dos próximos nove anos; segundo o porta-voz do Ministério da Educação, um dos instrumentos de financiamento será, e passo a citar, "o aluguer de espaços para casamentos e baptizados" e "para torneios de solteiros e casados". Esqueceram-se de considerar o aluguer para velar mortos e discriminaram os divorciados nos torneios de salão. Depois da anulação do défice, é provável que ainda sobre algum Portugal, algumas escolas, algumas maternidades, algumas urgências hospitalares, alguns apeadeiros de caminhos-de-ferro, algumas estações de correio, algumas aldeias do interior e, obviamente, 54 governantes com os seus 500 assessores e adjuntos, 137 secretárias, 128 motoristas e 280 auxiliares administrativos."

domingo, março 18, 2007

A DEVIDA COMÉDIA, de Miguel Carvalho

Em flagrante violação dos direitos de autor, mas a necessitar de divulgação, o artigo de opinião de Miguel Carvalho, na Visão.

A DEVIDA COMÉDIA

Miguel Carvalho

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Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo

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Criancinhas

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.

Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.

Desperta.

É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.

A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso.. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal. Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».

Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha? Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos.