quarta-feira, abril 02, 2008
Dois vídeos
e
Vejam mais no site dos Incorrigíveis, manifestamente melhor assim do que com apenas dois comediantes por semana...
segunda-feira, março 31, 2008
Novo vídeo de Björk
domingo, janeiro 06, 2008
Luiz Pacheco (1925-2008)
O coro dos cornudos,
acompanhado por São Pedro em surdina,
entoa a moralidade, após ter limpado as últimas lagrimetas
e suspirando como só os cornudos sabem
XX
Mulher não queiras sabida
nem com vício desusado,
que podes perder a vida
na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
com os três no seu lugar.
Examina-lhe bem a greta,
não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
e as maneiras que tem
a funcionar a capricho,
já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
e não te levam dinheiro...
os cornudos que aqui estão
com São Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
dos conos que o mundo guarda.
Fazem mais um bocado de lamentação.
(Nota do autor: «Quase», porque entretanto brincavam uns com os outros.
«Rabolices!» )
Mas se fornicas a rodos
tua vinda aqui não tarda!
Recomeça a moralidade,
estilo estão verdes, não prestam. Alguns bêbados,
cornudos despeitados ou amargurados.
Vozes pastosas. Deve ler-se: viiinho... velhiiinho...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
que faz esquecer a mulher...
que faz dum amor já velhinho
ressurgir novo prazer.
Finale, muito católico
XXVII
Assim termina o lamento
pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.
Luiz Pacheco, Coro de escánio e lamentações dos cornudos em volta de são pedro
in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica"
Selecção, prefácio e notas de Natália Correia
Antígona/frenesi, 1999
sábado, outubro 27, 2007
A acompanhar...
Até agora, a única força à Esquerda que fazia alguma coisa sobre Educação era a JCP, com uma boa estrutura de luta e defesa dos direitos dos alunos.
Com este fórum, esperemos que o Bloco passe a encarar este tema como o grande tema deste século. Quanto mais esta questão fôr discutida, melhor.
Relacionado com o tema deste mês (Como educar para a democracia?), ver esta entrevista com Sérgio Niza, com o tema "A Construção de uma Democracia na Acção Educativa".
Também gostei do texto de Maria José Araújo, que vou aqui transcrever:
Texto de Maria José Araújo:
Os lugares de brincadeira e esconderijo, lugares que estimulam a exploração e a transgressão de todo o tipo de limites, possibilitando formas de transformar o mundo, estão em extinção nos grandes centros urbanos. As crianças, submetidas a pressões educativas, pragmáticas e intelectuais excessivas, "rebentam" pelo comportamento.
A hiper-escolarização, a institucionalização do tempo livre e a existência mais ou menos generalizada de instituições para acompanhamento escolar, fora da escola, como é o caso dos Centros de Actividades de Tempo Livre constitui em si mesma um fenómeno social gerador de transformações no modo de vida das crianças, nos seus hábitos, na sua maneira de pensar, conviver e crescer. Os adultos têm tido dificuldade em encontrar fórmulas interessantes que lhes permitam dar conta de uma coisa tão simples e complexa como é entender as crianças e fazer da sua vida uma infância de agradáveis lembranças.
As crianças acomodam-se ou resistem a um quotidiano preenchido por tarefas, em espaços fechados com gente de todo o tamanho e de todos os jeitos, que supostamente as "entretêm". Numa sociedade em que "incessantemente se afirma o primado do trabalho (produtivo) sobre o lazer (inútil) e da razão (objectiva) sobre a fantasia (irreal) não admira, pois, que as sucessivas aquisições que são proporcionadas às crianças em vez de constituírem novos apelos ao imaginário, sejam o contrário, novas pontes para o real", como refere Agostinho Ribeiro*
Da visão das crianças sobre o mundo monstruoso, apopléctico, tentacular, atropelante e todavia sedutor já nos falava o Amadeu de "Cinco Réis de Gente", da capacidade de sonhar, imaginar e aventurar no tempo livre fala-nos o Zézé de "O Meu Pé de Laranja Lima". E nós? Nós inventamos uma solução nova: fazemos de conta que não vemos.
Neste sentido, e para recuperar a criatividade das crianças, é preciso encontrar um diálogo produtivo junto das crianças e jovens, das escolas e professores, dos pais e encarregados de educação e do público em geral, pois que me parece absolutamente necessário e urgente reabilitar o brincar e sobretudo o brincar com os outros (os amigos), o "brincar
com". "Brincar e sonhar (ou brincar sonhando) é algo que nos permite crescer e encontrar ideias, novas acções educativas ou reeducativas, quer se trate de crianças ou adultos, na área do conhecimento, do auto-conceito ou da interacção social, devemos começar por estabelecer as condições para se poder brincar" *
Notas
* RIBEIRO, Agostinho (1988) Brincar, Sonhar e Criar: Para uma psicopedagogia da Criatividade. Porto: FPCE-UP.
Maria José Araújo é investigadora do centro de investigação e intervenção educativas da FPCEUP"
(link)
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
15 segundos de Zeca Afonso
Pela Música, pelas Palavras e pelo Homem que cantou a Liberdade e a Revolução, 15 segundos de Zeca Afonso:
Maio maduro Maio, quem te pintou
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou
Raiava o sol já no Sul,
E uma falua vinha lá de Istambul
Sempre depois da sesta chamando as flores
Era o dia da festa Maio de amores
Era o dia de cantar,
E uma falua andava ao longe a varar
Maio com meu amigo quem dera já
Sempre no mês do trigo se cantará
Qu’importa a fúria do mar,
Que a voz não te esmoreça, vamos lutar
Numa rua comprida El-rei pastor
Vende o soro da vida que mata a dor
Anda ver, Maio nasceu,
Que a voz não te esmoreça a turba rompeu
P.S.- Com esta letra de Zeca Afonso, termino a rubrica de segunda-feira "15 segundos de...", sendo esta substituída por uma outra chamada "Citação da Semana".
"15 segundos de..." passará a "emitir" esporadicamente, quando encontrar um texto, poema ou letra de música que me pareça importante partilhar.
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
15 segundos de Will Durant: Para que serve a filosofia?
A maturidade é tudo. Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios.
Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter e propósitos que faz a personalidade e dá ordem e dignidade à vida. Filosofia é conhecimento harmónico, criador da vida harmónica; é disciplina que nos leva à serenidade e à liberdade. Saber é poder, mas só a sabedoria é liberdade.
Will Durant, in "Filosofia da Vida"
via citador
quarta-feira, janeiro 31, 2007
15 segundos de Álvaro de Campos
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Apontamento - Álvaro de Campos/Fernando Pessoa
segunda-feira, janeiro 29, 2007
15 segundos de Alexandre O'Neil
Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.
Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado.
Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.
É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.
Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor.
Pedra campal sobre o assunto.
Alexandre O'Neill, in 'Uma Coisa em Forma de Assim'
Via Citador
segunda-feira, janeiro 22, 2007
15 segundos de Gaiteiros de lisboa
Eu tenho um terreno
Mas não tenho enxada
Tenho uma carrinha
Mas é emprestada
Tenho água no poço
Mas está salgada
Com estas sementes
Eu não faço nada
Eu tenho e não tenho
Ando assim, que sorte!
Ando em meias tintas
Nem fraco nem forte...
Eu tenho e não tenho
Não é que me importe
Ninguém me confunde
Nem a própria morte
Ando ao que vier
Ao azar da sorte
Nem cá e nem lá
Nem fraco nem forte...
Tenho um cão de guarda
Dorme o dia inteiro
E tenho uma vaca
Mas pago ao leiteiro
Galinhas e porcos
Já não há dinheiro
Um cão e uma vaca
E eu no poleiro
Eu tenho e não tenho
Ando assim, que sorte!
Ando em meias tintas
Nem fraco nem forte...
Minha casa é grande
Mas chove lá dentro
Tenho um lindo fato
Mas já lá não entro
Eu sei tanta coisa
Mas não me concentro
Tenho a açorda pronta
Falta-me o coentro
Hoje tenho tempo
Está a chover
Amanhã faz sol
Mas não vou poder
É uma canseira
Não vê quem não quer
Que vida agitada
Tudo por fazer!
Eu tenho e não tenho
Ando assim, que sorte!
Ando em meias tintas
Nem fraco nem forte...
Letra: Amélia Muge
segunda-feira, janeiro 15, 2007
15 segundos de Aldous Huxley
Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irremediavelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são como seria de esperar, particularmente afortunados. Que as esperanças dos educadores ardorosos da época democrática cheguem alguma vez a ser cumpridas parece extremamente duvidoso. Os grandes homens não podem fazer-se por encomenda por qualquer método de ensino por mais perfeito que seja.
O máximo que podemos esperar fazer é ensinar todo o indivíduo a atingir todas as suas potencialidades e tornar-se completamente ele próprio. Mas o eu de um indivíduo será o eu de Shakespeare, o eu de outro será o eu de Flecknoe. Os sistemas de educação prevalecentes não só falham em tornar Flecknoes em Shakespeares (nenhum método de educação fará isso alguma vez); falham em fazer dos Flecknoes o melhor. A Flecknoe não é dada sequer uma oportunidade para se tornar ele próprio. Congenitamente um sub-homem, ele está condenado pela educação a passar a sua vida como um sub-sub-homem.
Aldous Huxley, in 'Sobre a Democracia e Outros Estudos'
Via Citador
segunda-feira, janeiro 08, 2007
15 segundos de Manuel Bernardes
Não há modo de mandar, ou ensinar mais forte, e suave, do que o exemplo: persuade sem retórica, impele sem violência, reduz sem porfia, convence sem debate, todas as dúvidas desata, e corta caladamente todas as desculpas. Pelo contrário, fazer uma coisa, e mandar, ou aconselhar outra, é querer endireitar a sombra da vara torcida.
Manuel Bernardes, in 'Luz e Calor'
segunda-feira, dezembro 11, 2006
15 segundos de Sartre
Jean-Paul Sartre, in 'O Ser e o Nada'
segunda-feira, dezembro 04, 2006
15 segundos de Fernando Pessoa
A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.
Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego'
segunda-feira, novembro 27, 2006
Mário Cesariny - 1923-2006
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
15 segundos de Sérgio Godinho
Nunca vivi nada em vão
Cada qual sabe do que tem
Ninguém pertence a ninguém
Seja inimigo ou irmão.
Seja inimigo ou irmão
Temos a nortada na pele
A discutir do farnel
Já se perdeu muito pão
Já se perdeu muito pão
E as bocas ainda a sonhar
A ver esperanças no ar
Quando há certezas no chão
E pr’aqui estamos em salamaleques
A lamber mãos feitas para abanar leques
A pedir bis, a grita’ brava, a aplaudir
Muito bem!
Até Domingo que vem!
Sérgio Godinho,"Até domingo que vem"
Pré-histórias