quinta-feira, janeiro 31, 2008

A miragem da cidadania

Não dou muita confiança a esta nova moda da “sociedade civil”, ou da “comunidade” ou dos “movimentos cívicos”. Penso que estes últimos são estruturas (disformes, é certo) que estão a tentar tomar o poder, assim como os partidos o fizeram quando nasceu a democracia. Ou seja, são partidos, mas sem dar a cara pelo que defendem... sem terem responsabilidade pelo que defendiam anteriormente, sem aquela chatice da coerência que é exigida aos partidos. Não... neste mundo dos movimentos cívicos tudo é alternativo e tudo vai mudando (ou não fossem eles parte da “sociedade civil”)

Quando se diz que a escola vai ganhar “mais autonomia”, quando se diz que a escola vai passar para as mãos da “comunidade” ou da “sociedade civil”, é de desconfiar. É uma maneira muito mais bonita de dizer que se vai pôr as autarquias a mandar nas escolas, ou que se vai desistir da confusão das colocações para passarem a ser os Conselhos directivos a escolher, por candidatura, os professores. E pior ainda: conjugar Câmaras a mandar nas escolas e escolas a escolher os professores. Primeira pergunta das entrevistas aos candidatos a professor: “De quem é que você é filho?”...

Este novo século traz-nos a política das palavras sonantes. A política spin, slogan, a política.net e a política cunha&vaz. Dão-nos imagens bonitas de um Portugal feliz, jovem e com saúde, dão-nos ilusões de grandeza, dão-nos novas fronteiras e novos conceitos.
De isto tudo, o mais perigoso parece ser a transformação de velhos modelos em novos e apelativos conceitos.
Se por “comunidade” querem dizer “autarca”, se por “autonomia” querem dizer “tirar o poder nas escolas à comunidade escolar”, se por “movimento cívico”, querem dizer “falsa democracia, sem partidos”, vão enganar outro, que eu não me contento com miragens.

7 comentários:

Range-o-Dente disse...

"Penso que estes últimos são estruturas (disformes, é certo) que estão a tentar tomar o poder, assim como os partidos o fizeram quando nasceu a democracia."

Uma boa parte desses movimentos são, pura e simplesmente, o Bloco de Esquerda.

Alguns outros são o PC, mas o BE é mais especialista nesse disfarce.

Por essa via o BE encontra uma forma de avacalhar e navegar nas ondas resultantes tentando tirar proveito da confusão.

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baldassare disse...

O PC utiliza os movimentos cívicos para chegar ao poder? Desculpe lá mas acho que o PCP é o partido com mais peso dado à estrutura partidária...
Tudo o que saia da esfera do Partido ou é contra o Partido ou, na melhor das hipóteses, é divergente em relação ao Partido.
Toda a actividade política do PC é dependente do partido (e do comité central)...

Quanto ao BE, tem toda a razão. Isso talvez aconteça porque a grande maioria dos bloquistas já foi do PCP ou de partidos dissidentes do PCP. Então, como queriam ser a "esquerda alternativa" mudaram de tal maneira essa partidodependência que acabaram por apostar nestes "movimentos". Porque o BE não é um partido que nasceu "contra o fascismo" ou "contra o capitalismo", mas "contra o PCP". Ao PSR, UDP, PXXI, FER etc... há um ponto em comum: o ódio em relação ao PC e a tudo o que cheire a comité central.
Basta falar com um gajo do Bloco que ele diz uma contra o capitalismo para dez contra o PCP...
Eles não são a "Esquerda alternativa" mas sim o "Anticomunismo alternativo"...

Anónimo disse...

Se pelo menos houvesse objectivos para a abertura à sociedade civil, poderíamos discutir se é positivo ou não. Abre-se completamente sem critério para aferir se a abertura está a ir ou não no caminho desejado.
MJP

Range-o-Dente disse...

"O PC utiliza os movimentos cívicos para chegar ao poder? "

Sim.

Não chega lá, mas tenta.

"Quanto ao BE, tem toda a razão. Isso talvez aconteça porque a grande maioria dos bloquistas já foi do PCP ou de partidos dissidentes do PCP. "

Tá a ver? Hábitos velhos não se perdem.

"o ódio em relação ao PC e a tudo o que cheire a comité central."

Supunham inicialmente poderem, com nova roupagem (apenas) conseguir o que o PC não conseguiu. Entretanto adaptaram-se mais rapidamente que o PC e exercitam a técnica da carraça.

"Basta falar com um gajo do Bloco que ele diz uma contra o capitalismo para dez contra o PCP"

Tal como o PCP em relação a outra esquerda qualquer.

São iguais, mas gostam mais de ver a Floribela.

Eles não são a "Esquerda alternativa" mas sim o "Anticomunismo alternativo"...

O BE é alternativo em tudo: esquerda alternativa, comunismo alternativo, socialismo alternativo, globalização alternativa, capitalismo alternativo, etc.

Nunca explicaram em que alguma dessas alternatividades consiste, mas também não se pode esperar que tenham algo dentro da cabeça. Aliás, devem ter um arame que, ao cortar-se, faz com que as orelhas caiam.

Ah, já me esquecia, eles não são exactamente alternativos. São "alter" (coisas da morangada).

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baldassare disse...

Olhe que eu não estou a ver o PC a utilizar muitos "movimentos" alegadamente apartidários. Claro que o PCP tenta chegar ao poder, mas pelo Partido (com P grande), não pela "sociedade civil".

"Tal como o PCP em relação a outra esquerda qualquer."

Os militantes do PCP focam-se muito mais na luta contra as políticas de direita do que com querelas esquerdistas. Pelo menos, os comunistas que conheço são muito menos anti-BE do que os bloquistas anti-PC...
Isto porque o PCP nasceu da luta contra o capitalismo e contra o fascismo, ao passo que o Bloco nasceu da dissidência em relação ao PC. Também por isso utilizam muito mais os "movimentos", porque estão fartos da estrutura partidária que conheciam no PCP.

Range-o-Dente disse...

O Baldassare anda distraído. Deixo duas pistas: CGTP, Partido Ecologista Os Verdes.

Este último, é tão apartidário que conseguiu chegar à Assembleia da República sem jamais (não confundir com o passarão denominado "Jamé", que vive para os lados do novo aeroporto) se ter apresentado, como tal, a eleições.

Mas atenção: aquilo é tudo a mais pura ecologia. Até cheira a maresia.

O BE casca o PC enquanto ele (O PC) tiver mais votantes. Logo que as coisas se inverterem, o BE ignorará o PC e o PC acusará o BE de ter posições que, pondo em causa as "legítimas" aspirações do operariado, e blá blá, estarão ao implícito serviço do capital.

Já foi assim quando o PC andava às aranhas com a UDP, nos quartéis. Nessa altura nem foi preciso que a UDP tivesse uma expressão significativa. Bastava ao PC tropeçar num militante barbudo e, zás: "submarinos do capitalismo!!!!".

Baldassare, não se esqueça que o PC ainda vive no PREC e o BE suspira por um PREC.

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Range-o-Dente disse...

Já agora, tanto PC como (posteriormente) BE foram fortes molas na implementação da "escola democrática", "centrada nos interesses dos alunos" e multi-tudo-quanto-é-palermice em que estamos afogados.

A coisa anda à volta da necessidade absoluta em criar vastas camadas de imbecis, potenciais votantes nos ditos.

A máxima será "quanto mais burros, mais lhes parece que aquilo que dizemos faz sentido".

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